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A ascensão do soccer

Ao contrário do que muitos imaginavam, a Copa do Mundo no Brasil está servindo para abrir os olhos dos brasileiros para fatos que se consumavam enquanto a população teimava em ignorar.

Um desses fatos que chamou atenção foi a compra de ingressos para os jogos da Copa. Um país, cuja existência perturba metade da população brasileira, foi responsável por comprar mais de 185 mil ingressos para a Copa, sendo que ao todo mais de 90 mil torcedores desembarcaram em terras brasilis para acompanhar sua seleção. Não, não é a Argentina.

Os Estados Unidos ignoraram o futebol por tanto tempo que outros países mais habituados à bola redonda começaram a desdenhar da capacidade americana de gostar do esporte-rei. Como o futebol é o esporte mais praticado e famoso no mundo, era questão de tempo que a febre chegasse na terra da bola oval. E ela chegou.

No final da década de 1970, Pelé deu o primeiro passo para que a bola redonda quicasse nos gramados americanos quando trocou o Santos pelo New York Cosmos com a pretensão de que, juntamente com Beckenbauer e Chinaglia (e posteriormente Carlos Alberto Torres), pudesse promover o esporte no país. A aventura durou pouco e não fora bem aceita pelos americanos, que relutavam fortemente contra o esporte que era taxado de "anti-patriota". Naquela época, por mais estrelas que os americanos importassem de outros clubes, pouco adiantaria já que a relutância era tremenda contra algo marcado na cultura de outros países. Vale dizer anteriormente os norte-americanos eram muito mais patriotas do que agora (muito se atribuiu à ignorância e falta de estudo, especialmente em regiões cuja escolaridade não era boa).

Entretanto, alguns entusiastas do futebol não desistiram da terra do Tio Sam para o futebol. A Copa de 1994 é o grande exemplo de como uma cultura pode ser alterada quando o patriotismo é revertido. Como a Copa era na casa deles, os americanos se sentiram na obrigação de fazer um bom papel, ou ao menos torcer pela seleção deles. Como o futebol estava apenas engatinhando por lá, seleções como Alemanha e Brasil caíram no gosto dos ianques. E esse foi o estopim para que uma nova cultura fosse implantada nos EUA, mesmo que bem timidamente.

Disputando Copas do Mundo ininterruptamente desde 1990, na Itália, os Estados Unidos foram evoluindo no futebol graças a importação de treinadores brasileiros, holandeses, alemães e italianos para as categorias de base. Como muitos dos "antigos" americanos já estavam velhos demais para reclamar em 1994, uma nova geração de torcedores foi crescendo por lá e, paralelamente, outro fenômeno foi se intensificando no cenário americano.

As grandes ligas americanas (MLB, NBA e NFL) passaram por uma revolução brutal desde suas criações até o final da década de 1990. O beisebol, que um dia já foi chamado de "o passatempo favorito dos americanos", caiu em desgraça depois de tantas denúncias de dopping, manipulação de resultados e descalabro com o dinheiro (o abismo financeiro entre New York Yankees com o restante das equipes era bizarro, não tinha graça), fazendo com que muitos jovens perdessem o gosto pelo jogo. A NBA também sofreu com a diminuição de popularidade por causa do dopping e do predomínio de Los Angeles Lakers e Boston Celtics nas finais (quando não era um o campeão era o outro). Sobrou apenas para a NFL, que deixou de ser o terceiro para ser o primeiro graças à uma visão financeira e esportiva de igualdade (as posições no draft, teto salarial e controle excessivo no anti-dopping). Uma invenção americana, a franquia, também contribuiu para o insucesso da MLB e NBA em relação à NFL, que é muito mais rigorosa com isso. Hoje, o passatempo do americano é o futebol americano.

Como a globalização é massiva, e aquele projeto que se iniciou em 1994, os jovens americanos começaram a praticar mais o futebol da bola redonda em escolinhas de futebol. O crescimento ainda é desigual por lá, porém, existem cidades onde a interação é muito mais intensa, como Seattle por exemplo. Eles perderam o seu maior orgulho no começo dessa década, o Seattle SuperSonics (time de basquete), para Oklahoma (virou o Thunder) por motivos políticos da NBA, justamente na época em que o "soccer" estava ficando em evidência nos EUA. Hoje, existe um ódio supremo por lá com a NBA e todos os fãs do basquete dessa cidade se voltaram para as outras duas equipes da cidade, o Seattle Seahawks (time de futebol americano, atual campeão do Super Bowl) e Seattle Sounders (tricampeão da Taça dos Estados Unidos - 2009, 2010 e 2011), que jogam no estádio mais barulhento do mundo (o pessoal de Seattle ultrapassou a barreira do som TRÊS VEZES em 2013, sendo duas vezes com o Seahawks e uma com o Sounders). Ainda impera entre os americanos o desejo de torcer por aquilo que vale a pena, pois como é dá natureza deles de só torcer para aquilo que tem chance de vencer, mas também é da cultura do americano gostar de esportes, de serem extremamente competitivos e orgulhosos. Quando eles perceberam que havia algo de bom acontecendo no futebol deles, o apoio começou a aumentar e aumentar sem parar. Atualmente, a MLS (Major League of Soccer - liga americana) tem uma média de público bastante superior a do Brasileirão.

Pesquisas revelaram que o "soccer" já está empatado com o beisebol e já ultrapassou o hóquei na preferência dos americanos. Entre os jovens, o "soccer" já é superior ao beisebol, sendo que a venda de camisas oficiais nos EUA é superior as que são vendidas no Brasil e Argentina juntas. O jogo entre Estados Unidos e Portugal, no domingo passado, bateu o recorde de audiência no ano da TV americana, superando até a média das finais da NBA entre Miami Heat e San Antonio Spurs. Mais de 24 MILHÕES de televisores ligados na partida que terminou empatada por 2x2 e mais de 500 MIL STREAMINGS na internet foram rastreados de cidades americanas. Em 2010, mais americanos assistiram a final entre Espanha e Holanda (24.3 milhões) do que a final da MLB entre Texas Rangers e San Francisco Giants (15 milhões), lembrando que naquela Copa os EUA foram eliminados por Gana nas oitavas-de-final.

Aliados à um bom futebol mostrado pelos americanos, com bastante toque de bola e compreensão tática, a presença maciça de americanos no Brasil para ver essa boa seleção de Klinsmann pode ser explicada pela preferência da juventude americana (que está de férias) por um esporte mais emocionante e imprevisível (e mais justo em relação beisebol e ao basquete). Times como Lakers, Celtics, Raiders, Yankees e Trailblazers foram perdendo espaço para Los Angeles Galaxy, Seattle Sounders, Sporting KC, Portland Timbers e Real Salt Lake, que desenvolveram um bom futebol e um belíssimo apoio das arquibancadas. Torcedores fanáticos dos Sounders e Timbers levaram os americanos a criar os AMERICANS OUTLAWS (Americanos Fora-da-lei) para apoiar a seleção, com gritos de guerra e mosaicos.

Em alguns lugares dos EUA a atmosfera durante um jogo da seleção pode ser facilmente confundida com a dos tempos do Dream Team de Michael Jordan e cia durante o auge do basquete, ou até com uma final de conferência no futebol americano. No entanto, parques, bares, escolas, ginásios e centros comunitários armam telões, fecham ruas e até as decoram para assistir os ianques desbravando uma terra que eles admiram muito (no futebol). Parece com a gente, não? Durante a semana, antes da partida contra a Alemanha, foi veiculada uma notícia de que os americanos pediram ao Obama que declarasse feriado nacional para que todos pudessem acompanhar a partida, já que o fuso horário para algumas cidades americanas chegaria a 4 ou 5 horas de diferença para o horário oficial do jogo, que foi às 13:00. Apesar do Obama ser fã declarado do esporte, o presidente resolveu não declarar feriado nacional, o que não impediu que muitos americanos parassem o que estavam fazendo para assistir o duelo que classificou a seleção novamente para a segunda fase da competição mais importante entre confederações do mundo.

Poucos países que possuem uma liga profissional de futebol evoluíram tanto e transformaram uma nação como o futebol fez nos Estados Unidos durante as últimas duas décadas. É claro que, apesar da nítida evolução, existam pessoas nos EUA que não veem com bons olhos um esporte que pode terminar sem gols ou, pior, num empate. Na visão do americano provinciano que ainda não "comprou" o esporte, esses são os motivos para o "soccer" não derrubar de vez outros esportes, cuja probabilidade de terminar sem uma pontuação, ou num empate, é quase zero. Parece bobo para nós, habituados a torcer por um 0x0 salvador, acreditar que isso seja uma justificativa de uma pessoa patriota.

Entretanto, os americanos adotaram o futebol como um esporte digno de se torcer. Vai ser comum à partir de agora vermos americanos chorando com um empate (se for sem gols, pior ainda), é assim jeito deles. É claro que muitos torcem pela vitória, mas, apesar de ser alvo de críticas, o patriotismo faz com que muitos expectadores da seleção norte-americana torçam para Dempsey e cia sem ao menos serem fãs de verdade do esporte, pois trata-se do país deles que está lá jogando numa terra completamente diferente da qual eles amam muito. E muitos desses críticos, sem perceberem, acabam pegando gosto pela bola redonda, tornando-se fãs do melhor jogo do mundo. Muitas celebridades americanas contribuem para que americanos normais comecem a gostar de futebol (veja no link dois parágrafos acima), fato como as visitas de Leonardo di Caprio e Kobe Bryant ao Brasil durante o torneio ajudam a promover o esporte por lá, até o apoio de outros que estão nos EUA como Bruce Springsteen (que até cornetou o Luís Suárez pela mordida), LeBron James, Josh Duhamel, Brad Pitt e Jimmy Fallon endossam esse novo ideal.


Se você não quer acreditar (ou gostar), prepare-se, pois os ianques estão chegando (no futebol).



Mais de 20 mil americanos foram ao Grant Park, em Chicago, para assistir EUA x Alemanha.

































Muitos parques foram tomados por torcedores em Washington.


























O mesmo apoio acontecem na Filadélfia, uma das cidades mais patriotas dos EUA.























Até o basquete parou para ver os EUA jogando contra a Alemanha. Essa foto é do Barclays Center, NY, onde aconteceu o draft da NBA na quinta-feira.


Não podia faltar ele, né? Segundo o Obama, "essa foi a maior partida que nós já jogamos".


















Nem Freud explica

O pai da psicanálise, Sigmund Freud, é responsável pelas maiores teorias e definições comportamentais do ser humano. Foi ele quem definiu parâmetros e verdades que são aceitas e digeridas por quase todo mundo. Tudo tem um motivo, tudo tem uma explicação. Freud sabe tudo. Ou quase...

Por que quase o mundo inteiro, e não TODO mundo, se o médico tcheco revolucionou o estudo da neurologia? Bom, é aí que se encaixa o título deste texto. Existe um povo, os irlandeses (sempre eles), que são considerados imunes à psicanálise. Quem cunhou essa afirmação foi o próprio Freud. Daí surgiu a expressão "nem Freud explica".

Existem aqueles que enxergam xenofobismo na declaração do psicanalista. Outros, mais lúcidos, encaram com bom humor a constatação do médico. O fato é que os irlandeses são complicados e gostam de complicar as coisas simples da vida. Afinal, quem é que consegue traduzir Ulisses, sucesso de James Joyce, para qualquer outra língua que não seja o inglês?

E o que isso tem a ver com futebol? Na realidade, isso vai além do futebol. Hoje, dia 1° de novembro, é o aniversário de fundação do Esporte Clube Taubaté. O Burro da Central completa 99 anos de existência. Poucos clubes do interior do Estado de São Paulo conseguiram tal façanha, ainda mais nesses tempos em que clubes artificiais ganham mais apoio da própria Federação Paulista e carinho dos empresários em detrimento de clubes tradicionais e de torcida fanática.

Entretanto, isso não será uma narração épica dos 99 anos de existência do maior clube do Vale do Paraíba. Também não será uma dissertação sobre o quanto é legal ir ao estádio, ou sobre os jogos incríveis que já presenciei. Trata-se de um desabafo.

Se você não conhece a cidade de Taubaté, acredite, você não sabe o que é um paradoxo. Aqui é o berço de Monteiro Lobato, Hebe Camargo, Cid Moreira e Renato Teixeira. É em Taubaté que você vai provar o melhor lanche de carrinho do Brasil. Somente aqui que você vai encontrar um sotaque que mistura o caipira com o maloca. É nessa cidade que uma mulher forjou a gravidez de trigêmeos. Foi na "Capital da Literatura Infantil" que o prefeito foi preso, cassado e depois continuou o seu mandado impunemente. O melhor hotel fazenda do país é taubateano. A Fêgo Camargo, por muito tempo, fora considerada uma das grandes escolas do país. O município de Taubaté fora uma das primeiras cidades do Brasil à abolir a escravidão.

Entretanto, em meio a grandes história, não importa por qual lado você entre em Taubaté, a primeira placa da cidade vai te alertar sobre o que mais interessa ao taubateano: o E.C. Taubaté. Não tem como escapar, ainda mais se você não gosta de futebol. Em meio a tantas celebridades notáveis e outras tão inescrupulosas, passando por tradições desnecessárias e abandono público, a cidade de Taubaté, assim como o clube, sobrevive. Porém, ela sobrevive pacatamente, tão morosa quanto o Jeca Tatu. Resumindo: não tem como não saber sobre Taubaté.

Porém, o que espanta é que Taubaté - tanto o clube quanto a cidade - esqueceu o tamanho da sua grandeza. O azul da bandeira parece desbotar em contraste com o céu sempre cerúleo dessa cidade. Eu sei que é difícil carregar a chaga de um passado tão potente, mas nunca se pode perder a personalidade. Atire a primeira pedra aquele taubateano que nunca ouviu uma história sequer sobre esse clube. Ou sobre suas façanhas. É impossível, todos os taubateanos sabem alguma coisa sobre o passado do clube! Existem muitos torcedores que se acham donos do clube, ou que se acha melhor torcedor que qualquer outro homem/mulher comum que vai aos jogos do alvi-azul no Joaquinzão. Isso é bom, mostra que o ego ainda persiste na alma calejada de uma torcida que já se acostumou com apedrejamentos.

Apesar disso, é triste ver o quanto a malícia deixou de existir por aqui. Deixamos de ser uma pedra no sapato para ser um objeto de chacota. O histórico de abordagens audaciosas, declarações furiosas e atitudes de respeito foram substituídas por melismas, floreios e auto-piedade. De oportunidade à favor. De burro para jumento. O clube foi acompanhando a cidade num declínio vertiginoso. É triste ver dois gigantes que carregam o mesmo nome se afundando numa poça de arrependimentos. A história, os moradores e os torcedores não merecem. Taubaté não nasceu para ser "bonzinho". Taubaté não nasceu para ser inocente. Taubaté é caipira. É lutador. Taubaté sabe se aproveitar das situações adversas transformando-as em algo positivo.

Freud se espantaria caso fosse incumbido de analisar o que se passa na cabeça de um taubateano. Não importa se o jogo é às 15h, numa quarta-feira de 35°, o taubateano vai faltar ao trabalho, vai encontrar com o seu encarregado de área na geral, vai pagar uma fortuna por um punhado de amendoim e vai lotar o Joaquinzão, pois ele sabe que o jogo é uma semi-final e o clube não pode ficar sem ele. O torcedor, mesmo sabendo que a chance do time sofrer com a arbitragem é enorme - já que o "chefe" dos apitadores é um taubateano que faz questão de dar o recado a qualquer diretoria que esteja comandando o Taubaté de que "eu guardo mágoas e eu não vou parar de me vingar enquanto o próprio Monteiro Lobato não sair da sua cova e vier me pedir desculpas pessoalmente" -, mas ele vai esquecer que nada dá certo ultimamente e vai torcer como sempre fora de costume por essas bandas. Ele vai dizer pro cara do lado: "Olha lá o trem passando, certeza que vai 'chamar o gol". Vai ficar puto da vida quando o juiz ignorar a marcação de impedimento pelo bandeira e vai se lembrar do taubateano que "fere" outros milhares de conterrâneos nessas horas vitais e sentenciará: "é sempre assim, meu filho". O doutor tcheco se espantaria ao ver que nem o Rei do futebol saiu daqui com vitória. Freud ficaria estupefato em saber que milhares de taubateanos saíram às 3h da manhã de suas casas e foram atrás do time, em solo adversário, com mais torcedores e barulho do que o mandante, e mesmo assim voltou derrotado.

O torcedor se flagela, se zanga, mas não abandona. O sentimento parece ser inabalável, mas o número de dissidentes aumenta a cada dia mais. É injusto julgar aquele que já abandonou o clube, ou aquele que já não acompanha como antigamente. Dá para entender, é feio, mas dá para entender. Afinal, todo mundo quer vencer e não só torcer. Só que um clube como o Taubaté não pode se dar a esse luxo, é preciso ser competitivo sempre. Fazer valer a camisa sempre!

O Taubaté é Taino, um baixinho parrudo e encrenqueiro que nunca fugiu de uma briga. O Taubaté é Joaquim de Moraes Filho, um negociador implacável que não fica sentado na janela esperando o cheiro da primavera. O Taubaté é Hugo, que era tão habilidoso quanto era sério. O Taubaté é a alegria de uma cidade de 300 mil habitantes. O Burro da Central não pode esquecer quem ele é, a bandeira não pode desbotar. Se nem Freud explica os irlandeses, o que diria ele sobre nós, um bando de caipiras orgulhosos? O orgulho tem que voltar a falar alto, pois o centenário bate à porta e ninguém vive mais a sua cultura do que o taubateano. O caipira de 99 anos já cansou de roer o osso, já está na hora dele começar a degustar do banquete que ele tanto merece!


Mais do que um pênalti

Sempre quando alguém erra ou acerta uma cavadinha na hora de cobrar um pênalti, o Léo Batista aparece todo pimpão na TV para falar sobre um tal de Panenka. Você já deve estar cansado de ouvir falar sobre o pênalti que o ex-meia tcheco cobrou contra a Alemanha Ocidental na final da Eurocopa de 1976, na antiga Iugoslávia. No entanto, quem diabos foi esse cara?

Pouco se fala sobre Antonín Panenka além desse artifício do demônio que ele criou. Como sempre teremos Alexandre Pato, Neymar, Zidane e Loco Abreu por aí para errar ou acertar pênaltis dessa conjuntura, e assim chamar mais atenção para o feito do ex-jogador, o tal Panenka sempre será lembrado pela jogada de efeito que mudou toda sua vida.

Panenka começou a carreira no Bohemians 1905, de Praga, aos 18 anos. Conhecido como "O Poeta", o ex-meia tinha na precisão dos passes e nas jogadas de bola parada sua grande qualidade. Entretanto, Panenka não era um craque. Além disso, o tcheco também contou com o azar de jogar num país cujo regime comunista imperava, impossibilitando-o de jogar num centro futebolístico mais visível. Apesar de não ser o melhor de sua época, dizia-se que Panenka tinha habilidade suficiente para jogar num clube grande na Europa, mas, como dito antes, o regime que assolou vários grandes jogadores da Tchecoslováquia impediu que a história registrasse outros momentos do jogador.

Por isso, restava a Panenka os jogos internacionais que sua seleção disputava para que pudesse fazer algum sucesso. E foi na Eurocopa de 1976, contra a Alemanha Ocidental, no "Pequeno Maracanã de Belgrado" (como é conhecido o Estádio Estrela Vermelha), que o mundo conheceu Antonín Panenka. Após empate de 2x2 no tempo normal, Tchecoslováquia e Alemanha Ocidental chegaram à decisão por pênaltis. Vale o registro de que essa foi a primeira disputa de pênaltis numa final de Eurocopa. Depois de converterem as setes primeiras penalidades, Uli Hoeness, hoje presidente do Bayern de Munique, disparou um canhão sob o travessão do goleiro Ivo Viktor. Com o placar apontando 4x3 para os tchecos, coube à Panenka a responsabilidade de bater o quinto penal de sua nação contra o goleiraço do Bayern de Munique, o lendário Sepp Maier. Também é bom dizer que nunca antes na história dessa competição a Tchecoslováquia tinha conseguido levantar o caneco. Contra todos os prospectos, lá se foi o camisa 7 da Tchecoslováquia bater o pênalti mais famoso do futebol. Panenka chocou o mundo ao converter a cobrança com maestria e ousadia num momento nada propício para tal.

Após o glorioso momento, Panenka recebeu tamanha atenção que pode ser comparada ao nível de periculosidade da cobrança do penal. Desde então, ao redor do mundo, toda cobrança com cavadinha é chamada de "la Panenka" (com exceção do Brasil, claro) em referência ao ex-meia.

Entretanto, depois de chamar à atenção do mundo com a cobrança, Panenka revelou que já havia cobrado alguns pênaltis com a cavadinha. Segundo o ex-jogador, ele havia começado a executar esse tipo de chute dois anos antes da Euro 76 em partidas da liga tcheca e em alguns amistosos pela seleção nacional. Após a cobrança na final da Euro, Pelé foi intercalado sobre o assunto e proferiu a seguinte frase sobre Panenka: "Quem é que bateu esse pênalti ou é um gênio, ou é um maluco".

Depois de alguns anos, o "poeta" voltou a aparecer no cenário do futebol, só que numa escala bem menor do que de outrora. Em 1980, Antonín Panenka ajudou a levar a Tchecoslováquia ao terceiro lugar da Euro 80. No mesmo ano, o ex-meia conquistou o prêmio de melhor jogador tcheco.

Outros fatores interessantes que compõem a vida futebolística de Panenka, além do pênalti, foram os clubes pelos quais ele passou após os 14 anos de Bohemians. O ex-jogador passou cinco temporadas no Rapid Wien, duas no St. Polten, duas no SK Slovan, uma Hohenau e a última temporada, aos 45 anos, pelo Kleinwiesendorf, em 1993. Apesar de ter jogado 14 anos por um único clube tcheco, Panenka nunca conseguiu ser campeão em seu país. Todos os outros títulos, com exceção da Euro pela seleção, foram conquistados na Áustria. Hoje em dia, Panenka é o presidente do Bohemians, seu clube de infância, onde busca livrar o clube da segunda divisão tcheca.

Num contexto geral, o pênalti com cavadinha a "la Panenka" é um artifício extremamente perigoso e visceral no futebol. A história dessa cobrança é bem maior do que se tinha notícia, justamente pelos ingredientes que a bola carregava naquela noite em Belgrado. Atualmente, essa cobrança tornou-se corriqueira em qualquer torneio de mata-mata. De Zidane e Loco Abreu em Copas do Mundo (2006 e 2010, respectivamente) à Neymar e Alexandre Pato em Copas do Brasil (2010 e 2013, respectivamente). Se no Brasil a história de Panenka não é muito disseminada (e o seu nome não é atribuído à cobrança), é necessário levar em conta o conteúdo histórico da cobrança, que acabou se tornando muito maior do que a carreira do próprio jogador. Além disso, as imagens não dão margem para erro, o estilo de Panenka, naquela noite de 1976, fora impecável!


Vai conquistar o mundo, Neymar!

Aviso: esse texto vai ser longo, e tem como objetivo o Neymar. Várias homenagens já foram feitas pro menino. Por isso vou tentar fazer diferente, e mostrar o caminho e os motivos que levaram até essa minha eterna gratidão pelo garoto ousado e alegre. Se você está sem paciência, ou é mais um desses que tem birra do menino, sugiro que não leia. Mas se quer entender o significado desse gênio do futebol, prossiga.

Antes de qualquer coisa: Obrigado por tudo, Neymar!

Quando eu digo tudo, estou generalizando uma gama de sentimentos que achei que não pudesse ter com o meu time. Ou que não tinha direito de ter. Passei anos e anos sofrendo calado quando as discussões eram sobre futebol e títulos. Tinha raiva, amargura e me torturava cada vez que o meu time "morria na praia".

Ninguém respeitava mais o meu time. Uma tragédia! Como é que ninguém respeitava o time que tem um cartel de jogadores gloriosos e títulos incontestáveis? No Brasil é assim. Não importa o seu passado, suas glórias e sua camisa. O que importa é o que acontece agora. Não há valorização do que já fora feito.

Esperei 12 anos da minha vida para ver o meu time conquistar algo de importante. E foi um Campeonato Brasileiro, do qual eu quase nem lembro o final do jogo, pois assim que o lateral-esquerdo encravou a bola no fundo das redes inimigas, o árbitro gaúcho apitou o final da partida e eu desmaiei de tanta incredulidade. Era um sentimento inexplicável!

Mas antes disso eu só tive decepções. Meu amor por esse clube de futebol foi forjado nas lágrimas de uma derrota, numa final de Campeonato Brasileiro, em que o título foi tirado à fórceps por "aquele que não deve ser mencionado". Nesse time tinha um jogador que pintara o cabelo de vermelho. Tinha 5 anos quando vi a minha primeira final de campeonato, e logo na minha primeira vez aconteceu essa catástrofe.

Os anos de trevas se arrastaram pela minha vida. O homem que tinha o cabelo vermelho transferiu-se pra um time grená da Espanha. Quando o meu pai me contou, eu fiquei puto e desolado. Perdera o meu herói para esse maldito time! E agora? Nada. Não acontecera nada. Um hiato monstruoso imperou no time da praiano.

O futebol, como todos sabem, é um fator social extremamente influente no Brasil. Isso infligia muito no meu comportamento, porque o meu time sempre decepcionava. Futebol é tudo na vida de um garoto brasileiro nessa faixa etária. E eu nunca tinha do que me gabar, o que era o oposto dos torcedores do time verde, do time de três cores e daquele time chato pra cacete que gostava de falar besteiras do meu.

No ano de 2002, a minha vida tomou com uma guinada fantástica. De repente todo mundo começou a temer o meu time. Tinham ódio de um menino de canelas finas e de outro menino que já era barbado mesmo tendo apenas 17 anos. O menino barbudo era o meu favorito, e desde então eu sempre quis ter barba. Hoje eu tenho um pouco, mas nada comparado à que ele tinha.

Em 2003, quando eu ainda me acostumava com o sucesso, o time dos meninos foi pra uma final de Libertadores. Libertadores, cara! Eu só sabia o que era isso por causa de outros times que a disputavam. Claro que eu sabia que, na década de 1960, o meu time tinha conquistado a Libertadores duas vezes seguidas. Só que todo mundo da minha idade já tinha visto o seu time jogar essa bendita competição, menos eu. E na primeira vez que tive esse gostinho, o meu time chegou na final contra um time argentino que levava no nome uma região da face humana. Assisti todos os jogos dessa competição, sozinho, todas as noites no sofá de casa. Perdemos os dois jogos da final, e eu tive a pior noite da minha vida.

Em 2004, ganhamos outro Brasileirão, de forma dramática, e por pontos corridos. Só fomos conquistar o título na última rodada. A Libertadores fora um fiasco, perdemos pra um time colombiano com nome engraçado, mas que no fim sagrou-se campeão. Nesse mesmo ano, o garoto barbudo mudou-se para o Porto, de Portugal. Fiquei chateado, mas ainda tinha o menino de canelas finas.

Já em 2005, um ano horrendo. Eu realmente odiei o ano inteiro. E muito. Tomei cuidado para não usar muito a palavra "ódio" e suas conjugações até aqui, pois à partir de agora eu vou despejá-las quase que aleatoriamente. Foi nesse ano que tudo começou a degringolar. Começou com a confusão da transferência do menino de canelas finas. O presidente do meu time brigou com o empresário dele, e ele brigou com o presidente do meu time. Em meio à isso tudo, um time da realeza espanhola ficava botando lenha na fogueira. Parecia que tudo ia desmoronar. Durante esse período, o lateral-esquerdo que marcara o gol do título de 2002 saiu. Logo em seguida o menino de canelas finas também foi embora. O ódio começava a fluir em minhas veias.

O ódio cessou por um pequeno período em 2006, quando o clube conquistou o Paulistão depois de 22 anos na fila. No entanto, o clube voltou a ser uma draga. Em 2007, a mesma história. Conquistou o bi do Paulista e depois fez feio no Brasileirão.

O ano de 2008 foi o ano em que a raiva e o ódio imperaram de vez na minha vida. O meu time quase foi rebaixado, o que seria inédito em sua história! Perdi a conta de quantas vezes eu chutei o meu velho rádio. O time se safou graças à um gol que mais parecia um jogo de pinball.

No entanto, foi no ano seguinte que a minha vida começou a mudar. Foi em 2009, um ano comum na história recente de letargia do meu time, que um certo menino, franzino como um filé de borboleta, pisou no gramado do Pacaembu pela primeira vez. Vagner Mancini, o treinador responsável pela maior maravilha da história do futebol moderno no Brasil, colocou o garoto sobre o qual eu, e vários outros santistas, tínhamos notícias dele desde os seus 13 anos de idade. Todo santista conhecia ele, mesmo quando ele ainda jogava pelo juvenil. Nós víamos vídeos dele, postado em blogs santistas da vasta web, e a ansiedade era grande para vê-lo no time principal.

Logo em sua estréia, o filé marcou um gol de cabeça contra o Mogi Mirim. Aliás, no Sapão encontrava-se o meu herói de 95, o homem de cabelo vermelho. Ele não tinha mais o cabelo tingido, mas ainda era o mesmo homem que eu endeusava. Mal sabia eu que uma troca de bastão estava acontecendo naquela vitória por 2x1 sobre o Mogi, no Pacaembu.

Aliás, o final deste ano de 2009 foi um tanto quanto profético. Apesar de ter terminado na 12ª colocação do Brasileirão daquele ano, o jogo final contra o Coritiba, no qual o meu time venceu por 4x0, valeu pelo filé de borboleta. Ele marcou os dois últimos gols da partida. Lá pra dezembro, encerrou-se o ciclo "teixeirista" - que fez muitas coisas boas, inclusive sobre o garoto em questão. O tio Laor, presidente que quebrou o ciclo, prometera que o clube voltaria as glórias brevemente com o menino que arregaçara no jogo contra o Coxa.

Eu juro que não acreditava que 2010 seria o começo da minha catarse. Minha não, de todos os torcedores do clube. O ano de 2010 começou exatamente como terminou, em 2009, na partida contra o Coritiba. O time venceu o Rio Branco pelo mesmo placar de 4x0, e com os dois últimos gols marcados pelo mesmo menino, que agora usava um penteado moicano.

Em 2010, o meu time voltou a ser o Santos do meu pai. Ele voltou graças à Neymar. Nesse ano, o Peixe conquistou o Paulistão de forma arrasadora. Foi tão devastador e rápido que eu nem acreditava! Era uma comoção, um renascimento absurdo. Goleadas e mais goleadas por mais de quatro gols. Mais de quatro gols, cara! Jamais pensaria que fosse ver um 9x1 na minha vida. Tudo bem que não era só o Neymar, mas ele era o protagonista dessa retomada!

Nesse mesmo ano o Santos ganhou a Copa do Brasil. Se você prestou atenção no que escrevi, o Santos não ganhava mais do que um título por ano. Parecia uma maldição que impedia o Santos de disputar duas competições ao mesmo tempo e ganhar as duas. Foram tantas goleadas que eu mal pude memorizar! Ah, doce ano de 2010!

No primeiro ano de Neymar como titular do Santos, minha vida ganhou as cores que eu não tinha. E tinha ficado mais feliz, pois o Santos me deixava feliz. Ele era temido de novo. O menino de moicano era odiado por todo mundo, e o time continuava ganhando títulos! Meu mundo sempre girou entorno do futebol, e a minha orbita era o Santos. Porém, faltava a minha obsessão. Aquele título que faltou em 2003.

Eu suplicava por uma Libertadores da América. Foram longas noites acordado, pensando em várias formas de fazer o Santos ganhar esse bendito título. Quando eu percebi que as coisas só pioravam, e que esse sonho estava muito longe de se realizar, eu quase deixei de acreditar.

Depois de tanto tempo, de tanto sofrimento, de tanta dor e decepção, o time liderado por Neymar me deu a maior alegria da minha vida. Foi um presente inesquecível. Quem ama um clube de futebol sabe o que é sofrer por ele. Minha vida poderia ter parado ali que não teria mais importância. Eu poderia idolatrar o Neymar apenas por essa Libertadores conquistada, e que eu clamava todas as noites a fio.

Foram seis títulos com o Santos em 5 anos de profissionalismo. Ao todo, Neymar ficou nove anos no Peixe. Várias pessoas já tentaram "vendê-lo" durante esse tempo, mas ele sempre ficou. Ele ganhava muito bem, mas isso era fruto de uma engenharia financeira perfeita. Ele também cedeu muitas vezes, e bem que poderia chiar, mas nunca o fez. Foram várias demonstrações de amor pela camisa branca ao longo desses nove anos. Com ou sem proposta do Chelsea, Barcelona e etc. Com ou sem o título Brasileiro. Com ou sem um time à sua altura na reta final de sua passagem, ele sempre nos honrou. Sempre. Jogava até quando não precisava.

O Santista não ama o Neymar apenas pelas dancinhas, ou pelos 136 gols, ou pelos dribles, ou pelas goleadas, ou pelo Prêmio Puskas. O Santista ama o Neymar porque ele era um de nós. Ele torceu pelo Robinho em 2002 e 2004, assim como nós torcemos. Ele é amado apenas pelo Santista, porque ele nos deu receita, patrocínio e está colaborando para um grande aumento da torcida. Ele devolveu a auto-estima perdida.

Neymar, em meio à tantas críticas, é um garoto que carrega o Santos até no sobrenome. Foi na vitória nos pênaltis, depois do empate de 1x1 contra o Mogi Mirim pela semi-final do Paulistão, quando o menino subiu no alambrado e comemorou a classificação como se fosse um título,  que percebi o tamanho desse amor dele pelo meu time. Quem viveu intensamente esses anos do Neymar no Santos sabe o que esse moleque representou. Ele nos resgatou do ostracismo. Do fundo do pântano.

Em 19 anos, o Santos conquistou 5 títulos. Nos cinco anos de Neymar pelo Peixe, conquistamos 6 títulos. É impossível não ser eternamente grato. A sina de vitórias voltou em mais uma era. A Era Neymar. Foi um combo de alegrias que, nesses 19 anos anteriores, tínhamos esporadicamente.

Quando ele diz que é um "até logo", eu acredito piamente. Eu sei que ele vai voltar. Eu tenho confiança de que ele vai ser o melhor do mundo lá na Europa. Vou torcer tanto pro sucesso dele, quanto torcia por ele aqui. Pela hombridade e pelo amor que ele teve por nós, os Santistas, durante esse tempo de negociação com os culés, só me resta idolatrá-lo eternamente. Se já não bastasse todas as glórias que ele nos dera, ele também nos respeitou como nenhum outro havia respeitado.

Por todos os dias tristes que viraram dias felizes após um jogo seu. Pelo resgate do nosso orgulho. Pelas lágrimas, lá em Brasilia. Por tudo o que você nos deu, só me resta dizer: vai e conquiste o mundo, Neymar! E até logo!

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