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A melhor liga nacional do mundo na melhor final de clubes do mundo

Todo mundo já sabe que a final da Champions League desse ano é entre Borussia Dortmund e Bayern de Munique. Porém, existe um mundo por trás dessa final. Um mundo estritamente germânico e que atende pelo nome de Bundesliga.

No ano em que completa 50 anos, a Bundesliga emplacou um feito notável na história do futebol europeu: colocou dois clubes alemães na final da Champions League pela primeira vez. Em seu cinquentenário, a liga alemã conseguiu se destacar de novo no cenário futebolístico.

No entanto, não é a data comemorativa, ou a final inédita que credencia a Bundesliga como o melhor campeonato nacional do planeta. Uma série de fatores positivos e culturais implicam na afirmação e na consolidação dos alemães.

O fator primordial para o sucesso da Bundesliga foi o reconhecimento do passado e a realização de um ideal. Para que isso acontecesse, foi preciso muita dedicação, precisão, determinação, paciência e disciplina, marcas do futebol alemão em si, segundo Bobby Moore. 

Claro que somente isso não garante sucesso no futebol moderno. Marius Neuhaus, cientista político e especialista sobre a Bundesliga, afirma que a identificação cultural do alemão com a sua região é extremamente forte. Além disso, um fator global também interferiu nesse processo: a Segunda Guerra Mundial. Devido à grande depressão alemã ocasionada pela derrota na Segunda Guerra, o futebol virou uma escapatória da realidade. O alemão é fissurado por futebol, e ele morre pelo time que torce.

Sabendo que o futebol é muito mais do que uma paixão, os alemães revitalizaram a sua liga com base em conceitos administrativos modernos. Dentre todas as principais ligas europeias, a Bundesliga é a única que não possui dívida com o fisco. A Premier League, La Liga e Calcio Serie A, estão cada vez mais afundados na crise europeia.

Além de não possuir dívidas com a Federação Alemã de Futebol, a Bundesliga não permite que os clubes de futebol se endividem. O famoso fair play financeiro que Michel Platini, presidente da UEFA, quer implantar em toda Europa, já existe há mais de uma década na Alemanha. Caso algum clube esteja devendo, a determinada equipe é rebaixada de divisão até que ela se reestruture e consiga o acesso, por meio da competição, e volte para o lugar de origem (ou para a primeira divisão).

Outro fator importantíssimo para o crescimento da receita e da igualdade dos clubes alemães é com relação à cota de televisão. A Bundesliga sentenciou que todos os clubes tem que receber a mesma fatia do dinheiro pela transmissão, e que TODOS clubes tem o direito de ter a sua partida televisionada para todo país ao menos uma vez por rodada. Isso mesmo, na Alemanha não importa se o time tem pouca ou muita torcida, ele vai aparecer ao menos uma vez na televisão (tanto na TV aberta quanto na TV fechada).

É quase inconcebível imaginar que isso aconteça no Brasil, onde existe um monopólio de Corinthians e Flamengo, em todas as rodadas, e em todos os canais.

Graças à igualdade nas cotas e com a grande exposição do clube na televisão, as agremiações alemãs trabalham fortemente com o marketing para conquistar mais torcedores, mais sócios e mais dinheiro. Por ser tão justa com os clubes, a Bundesliga acaba que incitando-os à usar o marketing como um meio legítimo para angariar mais dinheiro, e assim ter vantagem na compra de jogadores. Simples, honesto e preciso. Algo que o Bayern de Munique explora com maestria.

"A maioria dos clubes da Premier League e da La Liga teriam que declarar falência na Alemanha. É uma combinação com o status econômico do país, e a Alemanha está liderando a Europa nesse momento de crise", conta Marius.

Aliás, na Alemanha é raro ver um clube despejar cifras exorbitantes em jogadores. Desde a remodelação, quando os alemães perceberam que eles não eram mais uma potência temerosa no âmbito mundial do esporte bretão,  os germânicos decidiram investir nas categorias de base. Todo o lucro que cada clube consegue com as cotas, com a federação, com o marketing, vão, em sua grande parte, para a infraestrutura da academia de jovens.

Essa preocupação com os jovens jogadores reflete na seleção. Hoje, a Alemanha é a única seleção párea, talvez superior, à Espanha. Com futebol ofensivo, pragmático e compacto, a equipe de Joaquim Low é um resultado caseiro. Por exemplo, no último jogo oficial da Alemanha, contra o Cazaquistão, pelas Eliminatórias da Copa do Mundo, em que ela venceu por 4x1, apenas dois jogadores, de todos os que foram relacionados para a partida, não atuavam por clubes alemães: Sami Khedira e Mesut Ozil, ambos do Real Madrid. Lembrando que 90% dos jogadores da equipe principal da Alemanha já passaram pelas divisões de base da seleção nacional.

Somando todos os fatores já apresentados, existe um que é a marca registrada da Bundesliga: o público. Os torcedores, razão maior do futebol, são tratados de maneira especial na Alemanha. Desde o início deste século, o campeonato alemão é insuperável na média de público. O líder de arrecadação e de público na Europa é o finalista desta edição da Champions League: o Borussia Dortmund.

Os estádios alemães são a combinação perfeita de conforto, segurança e modernidade, sem tirar a vibração e a pressão impulsionada pelos torcedores. Dentro das arenas, é obrigatório ter um local reservado para os mais fanáticos, pois os clubes sabem que os donos são os torcedores e não os dirigentes ou patrocinadores. É comum uma agremiação alemã eleger um torcedor/assessor responsável pela comunicação entre a diretoria e os torcedores da arquibancada. Esse feedback entre torcida e direção possibilita que o clube agrade e melhore as questões exigidas pelos fãs.

Os mosaicos, bandeiras e adereços, tão presentes nas festas protagonizadas pelos torcedores alemães, são resultado de paixão, fanatismo e organização entre clube e torcida. O laço que une o clube, os fãs e os jogadores é muito estreito. Franck Ribery, ponta do Bayern, apesar de francês, sempre comemora os seus gols no meio da "geral" bávara. Sebastian Kehl, um dos jogadores mais experientes do Borussia Dortmund, puxa o coro da Muralha Amarela (a maior geral da Europa, com 25 mil lugares atrás do gol visitante) com um megafone.

Detalhe: desse numeroso e suntuoso aglomerado rebanho de torcedores alemães, 40% são mulheres! Sim, o futebol é tão forte, tão cultuado na Alemanha, que esse número grande de moças no estádio evidencia o quanto é trabalhado a marca, a receita e o público na Bundesliga.

Dito isso, em meio à tantos êxitos alcançados pelos germânicos na reconstrução do seu futebol, a filosofia alemã virou referência no mundo da bola. O resultado será acompanhado neste sábado, quando o Bayern de Munique, símbolo maior desse profissionalismo alemão, enfrentará o conterrâneo de Dortmund, o Borussia, que renasceu das cinzas (e de uma dívida de mais de 200 milhões de euros) graças ao uso correto das receitas.

O Bayern vai para a sua quarta final de Champions League desde a entrada do século XXI, sendo que das últimas três o clube só conquistou uma, na temporada 2000/2001, contra o Valencia. O clube bávaro, referência no futebol europeu por ter a melhor saúde financeira dentre os gigantes europeus, é favorito por ter um plantel com mais opções de qualidade. Os principais destaques do time (Phillip Lahm, Bastian Schweinsteiger e Thomas Muller) são pratas da casa misturados com jogadores de alto nível que foram comprados antes do ápice (Manuel Neuer, Dante, Franck Ribery, Arjen Robben e Mario Mandzukic). Por ter perdido a final da temporada passada para o Chelsea, em casa, o Bayern tem uma segunda chance para amenizar a decepção que ainda mora no coração de cada bávaro vivo.

O Borussia Dortmund, que conquistou a Europa apenas uma vez, em 1996/1997, contra a Juventus, encara agora a sua segunda final na história. Como dito antes, o Borussia conseguiu sobreviver à falência em 2003, quando teve que vender o seu estádio, o Westfalenstadion, para uma empresa privada, e fazer acordos para o pagamento de sua dívida milionária. Além disso, o BVB (como é conhecido o Borussia Dortmund) contou com um empréstimo de 2 milhões de euros do Bayern de Munique. Isso mesmo, dois rivais fervorosos. Irônico? Nem um pouco! O Borussia se reergueu e sanou todas as dívidas que tinha. Depois de conseguir eliminar o maior encosto de sua vida, o time da cidade de Dortmund recomprou o seu estádio e apostou na fórmula caseira de revelar jogadores. Além de revelar, o Borussia utilizou-se do scouting de jogadores desconhecidos e com potencial, caso do Shinji Kagawa (que foi vendido ao Manchester United por 26 milhões de euros, sendo que o japonês fora comprado pelo Borussia por 120 mil dólares do Cerezo Osaka),  Felipe Santana, Robert Lewandowski, Lukasz Piszczek e Jakub "Kuba" Blaszczykowski. Das últimas três edições da Bundesliga, o BVB conquistou duas, e hoje está na final da Champions League. Um renascimento épico.

Portanto, a final desta Champions League entre Borussia Dortmund e Bayern de Munique vai muito além da "orelhuda" (apelido da taça). No canto vermelho, o Bayern de Munique, um clube gigantesco, potente e inovador. No canto amarelo, o Borussia Dortmund, um gigante alemão que por muito pouco não pereceu, e agora desfruta de seu trabalho duro e do profissionalismo. Juup Heynckes contra Jurgen Klopp, o primeiro se despede do futebol, enquanto o segundo se consolida como um treinador estrategista e motivador. Duas torcidas alucinantes vão duelar num show à parte dentro das arquibancadas. Mario Gotze, vendido pelo Borussia Dortmund ao Bayern de Munique, não joga. Enquanto isso, Franck Ribery briga com Jerome Boateng na comemoração do título da Bundesliga. Em Wembley, os dois clubes de melhor campanha desta edição da Champions League vão disputar o troféu, não só de rei da Europa, mas também o troféu de rei da Bundesliga, atualmente a melhor liga nacional do mundo.

Um casamento que tem tudo para dar certo

A notícia de que Pep Guardiola seria o novo treinador do Bayern de Munique, ao término desta temporada, transcorria desde segunda-feira. O boato se confirmou verdadeiro nesta quarta-feira quando o clube bávaro confirmou a contratação do ex-comandante do Barcelona como o predecessor de Juup Heynckes, que vai se aposentar em julho.
Desde o seu divórcio com o Barcelona, Guardiola se reclusou durante 1 ano. Poxa, um treinador que venceu 16 troféus em 4 anos merece um descanso. Estudioso como é, Guardiola deve ter assistido, ao menos, um jogo de cada liga futebolística nesse mundo.
Especulou-se que o catalão assinaria com o Chelsea já no começo desse ano. Mentira. Depois ventilaram o seu nome no PSG. Mentira. Houve até um murmurinho de que ele poderia treinar a seleção do Qatar. Mentira. Seleção Brasileira? Por mais que fosse um sonho dele, os vampiros da CBF jamais aceitariam.
Surgiu então o gigante europeu Bayern de Munique. Um clube tradicional com vários fãs no mundo afora, e que investe pesado nas categorias de base. Os bávaros sempre revelam craques (Schweinsteiger, por exemplo). Além do mais, o Bayern sempre fora um time de futebol refinado, ofensivo e técnico. Assim como fora com o Van Gaal, holandês que deu o primeiro título da Liga dos Campeões ao Barcelona (veem a coincidência?), e o próprio Heynckes, atendo-se apenas aos treinadores deste século.
Pep saiu do Barcelona dizendo que estava à procura de novos desafios. Pois agora ele conseguiu! A Bundesliga, que na minha modesta opinião, é o segundo melhor campeonato europeu para se assistir, atrás apenas da Premier League. Nela não se pode gastar mais do que arrecada, essa medida fora tomada há 10 anos atrás e vem dando ótimos resultados aos clubes. Graças à essa regra da saúde financeira, os clubes necessitam formar jogadores em suas canteiras e rodar o mundo à procura de jogadores bons e baratos que possam gerar lucro no futuro.
Voltando as atenções ao novo casamento de Guardiola, agora com o Bayern, pode-se nesse momento imaginar algumas hipóteses. Pep deve receber em julho um time montado e, provavelmente, campeão alemão. Nesse time, Guardiola terá Manoel Neuer (goleiro que tem a menor média de gols sofridos na Bundesliga), Phillip Lahm (uma potência tanto no ataque quanto na defesa, além de jogar nas duas laterais), Dante (zagueiro brasileiro que é cultuado na Alemanha e, estranhamente, nunca fora convocado), Schweinsteiger (gênio do meio-de-campo), Toni Kroos (tem tudo pra desempenhar o papel de Iniesta nos tempos de Guardiola no Barcelona), Javi Martinez (eterno sonho de consumo de Guardiola nos tempos de Barcelona), Thomas Muller (artilheiro da última Copa), Franck Ribery (habilidoso e taticamente imprescindível), Arjen Robben (craque problemático) e Mario Mandzukic (roubou a posição de titular do Mario Gomes).
Se não bastasse esses excelentes jogadores, o Bayern ainda conta com os jovens David Alaba (jogador austríaco, canhoto, e que joga de lateral, volante e meia), Xherdan Shaqiri (jovem meia-esquerda suíço, que veio para o Bayern de Munique após desempenhar ótima UCL pelo Basel), Luiz Gustavo (volante pindense que joga desde zagueiro até segundo volante) e o Emre Can (jovem volante turco, destaque da última Copa do Mundo Sub-20).
As perspectivas são excelentes para Pep Guardiola. A identificação do treinador que cresceu no Barcelona, onde comprou a ideia dos dirigentes catalães ao montar uma equipe que cultuasse o inveterado tike-taka, facilitou no seu processo de genialidade. Porém, a realidade do Barça é uma história. Lá existe Messi, Xavi, Iniesta e Fábregas, que sempre foram tidos como craques. No Bayern, ainda existe a expectativa de que Schweinsteiger, Toni Kroos, Franck Ribery e Thomas Muller se tornem tão grandes quanto o seu potencial nos leva a crer.
Guardiola não precisa montar um Barcelona dentro do Bayern de Munique para que o seu sucesso seja reconhecido. Os bávaros, com Juup Heynckes, já desempenha um futebol bonito e competitivo. No entanto, ainda falta algo a mais para que o Bayern seja a primadona do futebol mundial. Pode ser a posse de bola massacrante do Barcelona, ou pode ser o Lionel Messi...
Independente disso, Pep pode manter o mesmo esquema tático do time de Munique: o 4-2-3-1. Com Ribery e Robben bem abertos nas pontas e com Muller centralizado no meio, como quase um segundo atacante. Atrás desse trio, a dupla de volantes varia de acordo com o adversário. Na maioria das apresentações, o Heynckes entra com Schweinsteiger e Toni Kroos que dão uma qualidade imensa ao meio-de-campo. O primeiro é unanimidade no time, já o segundo revesa com o brasileiro Luiz Gustavo, ou com o espanhol Javi Martinez quando é necessário marcar o adversário abruptamente.
Caso queira, Guardiola pode mudar o modo de jogar sem alterar o esquema tático vigente. Ao invés de colocar o Schweinsteiger como primeiro volante, Pep pode avançá-lo para segundo volante e colocar o Martinez na contenção. Toni Kroos pode trocar de lugar com Muller, que roubaria a vaga de atacante do croata Mandzukic.
É claro que são apenas suposições. Guardiola pode pedir novos reforços -alguns do próprio Barcelona-, ou talvez utilizar uma dessas coisas que disse acima. Além disso, Pep travará duelos interessantes com Jurgen Klopp, excelente comandante do Borussia Dortmund, e Sami Hyypia, aquele ex-zagueiro do Liverpool que hoje treina o Bayer Leverkusen.
Os desafios serão maiores para Guardiola em sua empreitada na Bundesliga, já que o nível de competitividade do campeonato alemão é maior que do no campeonato espanhol. Mas, pelo pouco que deu para ver do ex-treinador do Barcelona durante esses quatro anos mágicos na terra de Carlos Ruiz Zafón, é que classe e trabalho não faltarão em Munique. Como os alemães são centrados em conquistar objetivos, quem mais ganha com isso são os torcedores do Bayern de Munique e a Bundesliga.

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