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Uma Madrid de verdade

Todo mundo sabe que a final da Champions League deste ano será entre Real Madrid e Atlético de Madrid, dois antigos rivais da mesma cidade. Porém, poucos sabem que essa será a primeira vez, em toda história da competição, que a final será composta por dois times da mesma cidade, criando assim um verdadeiro dérbi na final.

A final não terá o glamour de um Bayern de Munique, ou a polêmica de um José Mourinho. O Barcelona nem sequer chegou perto de brigar pela final. O Real Madrid, do melhor jogador do mundo, já fora mais favorito em outros tempos e, por isso, era dado como favas contadas contra o poderoso Bayern. Já o Atlético de Madrid, tão ignorado pelos madridistas (e grande parte do mundo), chegou à final quebrando todos os paradigmas.

Mas é só por isso que o clássico é tão simbólico, tão especial, para a final da Champions? Não, é muito mais do que isso.

Em toda história, Real Madrid e Atlético de Madrid se enfrentaram em 252 partidas oficiais, sendo que há uma ampla vantagem madridista (134x62). Porém, os dois se enfrentaram em apenas cinco finais, e, pasmem, com vantagem esmagadora dos Colchoneros (4x1). Apesar disso, mesmo se enfrentado tantas vezes, esta será apenas a segunda vez que os dois se enfrentarão em um campo neutro. Na única vez que isso aconteceu, o Real Madrid venceu a partida por 2x1, em 1959, na cidade de Zaragoza.

O Real Madrid, apesar de ser mais caro - e ter mais lastro - que o Atlético de Madrid, passará por uma situação inusitada: apenas 5 jogadores do elenco já disputaram uma final de liga européia (Casillas, Xabi Alonso, Pepe, Cristiano Ronaldo e Arbeloa). Desses cinco, Casillas é o que mais jogou finais (quatro partidas), e é seguido de perto por Xabi Alonso (três partidas), que será desfalque contra o Atlético de Madrid devido à suspensão pelo terceiro cartão amarelo. Já pelo lado do Atlético de Madrid são 14 jogadores que já estiveram em alguma final de competição européia.

Mas, ao contrário do campo, o Real Madrid não sofrerá com a inexperiência no seu banco de reservas. Carlo Ancelotti disputará sua quarta final, igualando o recorde de Miguel Muñoz, Marcello Lippi e Alex Ferguson. Simeone se juntará a Luis Carniglia, Fernando Riera, Helenio Herrera, Otto Gloria, JC Lorenzo e Hector Cúper como apenas o sétimo treinador não-europeu à comandar um finalista de Champions League.

Enquanto o Real Madrid busca a tão desejada "la décima", o Atlético de Madrid pode ser o décimo campeão invicto da Champions League. Caso perca a partida nos pênaltis, o clube pode ser o primeiro vice-campeão invicto. Porém, o Atléti possui uma curiosidade à seu favor: Godín, zagueiro uruguaio, nunca perdeu uma final de partida única em sua carreira.

O Madrid jogou 14 vezes contra rivais espanhóis em competições europeias, sendo que foram 7 vitórias, 4 empates e 3 derrotas (uma para o Atlético). O Atlético também jogou 14 vezes contra rivais do mesmo país em competições europeias, sendo que venceu 7 vezes, empatou 3 vezes e perdeu 4 vezes (duas para o Real Madrid). Se serve de consolo, o Atlético de Madrid não perde para um espanhol numa competição europeia desde 2004 (Villareal 2x0). Os Galáticos nunca venceram uma partida oficial em Lisboa, enquanto os Colchoneros só jogaram uma vez, onde conseguiu conquistar um empate.

Mas será que isso torna a grande final mais simbólica? Não, não é isso.

O grande ponto dessa final é o balanço que se faz da trajetória dessas duas equipes madrilenhas ao longo da história. O Madrid é um ano mais velho que o Atlético, e ambos surgiram humildemente após conferências de estudantes de outras cidades. Apesar do começo similar, o destino alterou o rumo da vida das duas equipes.

O Madrid virou Real depois de uma intervenção do rei Alfonso XIII, que deu esse título ao clube que mais gostava na capital. Com tal alcunha tudo ficou mais fácil para o coirmão do Atlético, que teve que se desdobrar para sobreviver. Antes de ser coroado, o Real Madrid era uma equipe competitiva mesmo sem todo o dinheiro e pompa que viria a ganhar posteriormente.

Antes de ser Atlético de Madrid, o clube fora conhecido como Athletic Madrid (alusão ao Athletic Bilbao), Athletic Aviación e Atlético Aviación. Com clara influência inglesa, o clube da capital sofria com a perseguição nacionalista, especialmente durante o regime do generalíssimo Francisco Franco. As alternâncias de nome se davam porque o general não suportava que espanhol adotasse neologismo. Barcelona, Athletic Bilbao e outros clubes, que para piorar viviam fora da capital, sofreram com isso.

Enquanto o Real Madrid ganhava notoriedade com a realeza, o Atlético de Madrid sobrevivia com a fidelidade de seus torcedores, muitos deles da classe operária de Madrid. Inevitavelmente, o Real Madrid tornou-se uma potência mundial muito devido aos privilégios da coroa, mas, existem outros casos na própria Espanha de outros "Reais" que não vingaram potencialmente. Portanto, o Madrid (como os torcedores realmente chamam o clube) não é apenas um clube abonado, ele lutou também.

O tempo foi se passando e o Atlético de Madrid ficava cada vez mais para trás, se endividando junto com a classe média da capital. Vez ou outra o clube conquistava um troféu, revelava um jogador (dentre eles o genial Luis Aragonés) e até figurava numa final de Champions League (1974, quando perdeu por 4x1 para o Bayern de Munique). Mas era difícil sobreviver, e um rebaixamento assolou a vida do torcedor Colchonero.

Os dois sempre foram arquirrivais, mas, após a vertiginosa queda do Atlético de Madrid ao longo dos anos, os torcedores do Real Madrid simplesmente ignoraram a presença do coirmão da capital. Existe coisa pior para um torcedor do que ver o seu time ser ignorado por um rival? Não! No Brasil, algo semelhante acontecera com Santos e Botafogo, em seus respectivos estados, em relação ao Corinthians e ao Flamengo. Para piorar a situação do Atlético fora atribuído ao clube a pecha de "El Pupa" (o café-com-leite), pois o clube era incapaz de desempenhar uma temporada digna. Muitos torcedores jovens do Atlético viraram a casaca e começaram a torcer para o Madrid, pois a ânsia por um título era maior do que a fidelidade. Aos poucos, o Atlético de Madrid se tornava "o clube do meu avô". Isso dói, meu amigo. O Superclássico, que hoje é entre Real Madrid e Barcelona, antes era Real Madrid e Atlético de Madrid.

O ódio e rancor apodrecia o coração e a esperança do torcedor Colchonero. Colchonero, aliás, é uma apelido dado pelos madridistas, em tom jocoso, pois o uniforme do Atlético era semelhante aos colchões dado ao povo desprovido de dinheiro pelo regime. É comum você enxergar faixas ao redor do Vicente Calderón estampando o movimento "anti-madridista". Hoje, a rivalidade é gigantesca apenas no coração do torcedor atleticano.

O Real Madrid muitas vezes paga pelo ódio dos outros torcedores por ser um clube extremamente rico e poderoso. Um clube não se mantém dessa maneira por tanto tempo sem ter muito trabalho e grandeza. Os Galáticos são poderosos graças ao seu esforço, que às vezes fica em segundo plano devido à arrogância de pessoas distintas e não do clube. Se algum clube sonha em ser potência, o exemplo a ser seguido é o Real Madrid.

Nos últimos 10 anos o Atlético de Madrid se reestruturou muito, chegando a conquistar dois títulos continentais e, recentemente, uma liga espanhola. Simeone fez o plantel entender a dor do Colchonero, criando na equipe uma alma peleadora, difícil de ser batida. Taticamente estruturado, o Atlético busca, mais uma vez, na base da alma vencer o seu maior rival estando no seu maior momento desde 40 anos atrás.

Ancelotti fez do Real Madrid um time menos arrogante e mais tático do que era antes, especialmente durante o reinado de José Mourinho. Muito bem montado, o Madrid possui um sistema defensivo seguro e um contra-ataque espetacular. Sem contar, é claro, com Cristiano Ronaldo, um grandíssimo jogador.

Nessa final simbólica vencerá aquele que tiver o coração mais quente.



Meu malvado favorito

Nunca um título adaptado de um filme infantil fora tão adequado para uma realidade. O dia 25 de maio de 2013 fora um dia em que se confundira a ficção com a vida real.

De vilão à herói, o holandês Arjen Robben deu ao Bayern de Munique a sua quinta taça da Champions League. Agora, os bávaros estão empatados em número de taças com o Liverpool. Porém, por muito pouco, o destino não quis que Robben reescrevesse a sua história de vilania.

Um exercício de memória: Robben cometera um erro na final da Champions League de 2009/2010, contra a Inter de Milão, quando perdera a bola no meio-campo, e no lance seguinte a equipe italiana encontrou o caminho do segundo gol. Robben tornara a falhar em outra decisão, no mesmo ano, só que em outra magnitude. O atacante da seleção holandesa perdeu inúmeras oportunidades cara-a-cara contra Casillas, na decisão da Copa do Mundo de 2010, contra a Espanha. O final todos sabem: Iniesta marcou o gol salvador da Espanha na prorrogação. Se não bastasse a fama que estava adquirindo, Robben fez questão de instaurá-la em 2012. Na decisão da Champions League de 2011/2012, o holandês repetiu o mesmo repertório de erros contra a Espanha, porém, com um agravante. Robben perdeu um pênalti na prorrogação da final contra o Chelsea, em Munique. O resultado? Chelsea foi campeão nos pênaltis em plena Allianz Arena.

Em uma das melhores finais de todos os tempos, com ritmo alucinante e muita técnica de ambos os lados, o destaque era mais uma vez Arjen Robben. Como dito antes, o holandês, por muito pouco, não repetiu os mesmos erros de outrora, na final de ontem, contra o Borussia Dortmund.

Os erros do holandês nessa final foram bem parecidos com os da final contra a Espanha. A diferença era de que Weidenfeller estava fechando o gol em vez de Casillas. O ritmo se manteve até os 43 minutos do segundo tempo quando tudo mudou.

Esqueçamos as amareladas do holandês e foquemos na habilidade do jogador. Robben é craque. Ele dribla em alta velocidade, muda de rota e arremata a bola com a perna esquerda de uma maneira absurda! Aposto que muitos de vocês se lembram de vários gols do atacante quando ele costurou a defesa pela ponta e cortou pro meio e chutou. A jogada é manjada, mas é muito difícil de parar.

Robben tinha perdido a sua vaga de titular na ponta-direita do Bayern para Toni Kroos após o desastre da última decisão contra o Chelsea. Kroos era titular absoluto do Bayern até o jogo de ida contra a Juventus, pelas quartas-de-finais, em Munique, quando a equipe venceu por 2x0. O alemão sofreu uma lesão no joelho e teve que operar. Robben, o malvado, voltou a ser titular.

Quando o Bayern avançou para as semi-finais e viu que pegaria o Barcelona, Robben já estava garantido como titular para o enfrentamento. Apesar do óbvio declínio catalão, o Bayern atropelou o Barça e ensacou um 7x0 no placar agregado tendo Robben como principal jogador nas duas partidas.

Chegando à final contra o rival Borussia Dortmund, um timaço - e o único time sabia parar a máquina bávara -, Robben voltara a ser protagonista. O primeiro tempo fora todo aurinegro, com participação essencial de Manuel Neuer. Porém, o Bayern contava com a agudez do vilão da última edição para chegar ao ataque. Numa dessas chegadas, Robben perdera um gol idêntico, cara-a-cara com Weidenfeller, como acontecera em 2010, contra o Casillas.

No segundo tempo Robben manteve o ritmo criando sempre uma ameaça constante para defesa do Dortmund. O domínio era vermelho, mas o placar ainda apontava a igualdade de 1x1. A lembrança do gol perdido, e dos inúmeros chutes perigosos, chamava a atenção para a fama do jogador.

No entanto, ao 43 minutos do segundo tempo, em uma bola esticada da defesa, Ribery matou a bola no peito, deixou-a deslizar pelo corpo e tocou de letra para o atacante que entrava em disparada pelo meio. Esse atacante era o Robben.

Nesse vácuo entre o passe fantástico do francês para o holandês, memórias recentes devem ter tomado a atenção de todos que viam o jogo. Robben, a bola e o goleiro, mais uma vez. Tinha como piorar a vida do Robben? O vilão confirmaria a sua sina?

O que aconteceu foi a redenção de um homem tachado de vilão. Robben, com uma classe que lhe convém, anotou o gol que derrubou a Muralha Amarela do Borussia Dortmund. Atônito, o holandês corria para todos os lados durante a comemoração. Assim que Nicola Rizzoli assoprou pela última vez o seu apito, o ex-vilão tornou-se herói.

Muricy Ramalho costuma dizer que a bola pune. O treinador brasileiro tem toda a razão, mas, a bola também faz justiça. Uma justiça tardia com um grande jogador de futebol, que se ajoelhou e ficou olhando para as próprias mãos. Incrédulo.

Uma justiça, também tardia, com um grande clube de futebol.

O Bayern de Munique junta-se ao Real Madrid, ao Milan e ao Liverpool como um dos principais vencedores do principal torneio continental de futebol no mundo. Falta muito para igualar o número de taças do Real Madrid, porém, uma coisa é certa: o Bayern é o melhor time do mundo.

Essa hegemonia, depois de tantos vices recentes, é fruto de um trabalho duro. O time bávaro conseguiu montar uma equipe que alia jogadores alemães, que foram formados na base, com jogadores estrangeiros que chegaram para fomentar o sistema tático. Com o conhecimento abundante de futebol por parte de Jupp Heynckes, que infelizmente vai se aposentar, o Bayern demonstra um futebol absurdamente dominante.

O Bayern erra muito pouco, joga em velocidade, toca a bola, sempre chuta com perigo e roda o time quando nada dá certo. É muita intensidade e muita paciência. O Bayern em campo parece com uma cobra. É um time predador que calcula com perfeição todos os seus movimentos. Isso é resultado de uma equipe treinada à exaustão, com jogadores de técnica elevadíssima.

Por tudo que envolveu a saga bávara na competição, o destino de Robben, a classe como joga, e o torcedor que sofreu ao perder um título em casa, nada mais justo do que uma final digna de ficção. Claro, em especial para Robben, o malvado favorito de todos os bávaros.

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