Postado Por : Caio Nascimento 1.11.13

O pai da psicanálise, Sigmund Freud, é responsável pelas maiores teorias e definições comportamentais do ser humano. Foi ele quem definiu parâmetros e verdades que são aceitas e digeridas por quase todo mundo. Tudo tem um motivo, tudo tem uma explicação. Freud sabe tudo. Ou quase...

Por que quase o mundo inteiro, e não TODO mundo, se o médico tcheco revolucionou o estudo da neurologia? Bom, é aí que se encaixa o título deste texto. Existe um povo, os irlandeses (sempre eles), que são considerados imunes à psicanálise. Quem cunhou essa afirmação foi o próprio Freud. Daí surgiu a expressão "nem Freud explica".

Existem aqueles que enxergam xenofobismo na declaração do psicanalista. Outros, mais lúcidos, encaram com bom humor a constatação do médico. O fato é que os irlandeses são complicados e gostam de complicar as coisas simples da vida. Afinal, quem é que consegue traduzir Ulisses, sucesso de James Joyce, para qualquer outra língua que não seja o inglês?

E o que isso tem a ver com futebol? Na realidade, isso vai além do futebol. Hoje, dia 1° de novembro, é o aniversário de fundação do Esporte Clube Taubaté. O Burro da Central completa 99 anos de existência. Poucos clubes do interior do Estado de São Paulo conseguiram tal façanha, ainda mais nesses tempos em que clubes artificiais ganham mais apoio da própria Federação Paulista e carinho dos empresários em detrimento de clubes tradicionais e de torcida fanática.

Entretanto, isso não será uma narração épica dos 99 anos de existência do maior clube do Vale do Paraíba. Também não será uma dissertação sobre o quanto é legal ir ao estádio, ou sobre os jogos incríveis que já presenciei. Trata-se de um desabafo.

Se você não conhece a cidade de Taubaté, acredite, você não sabe o que é um paradoxo. Aqui é o berço de Monteiro Lobato, Hebe Camargo, Cid Moreira e Renato Teixeira. É em Taubaté que você vai provar o melhor lanche de carrinho do Brasil. Somente aqui que você vai encontrar um sotaque que mistura o caipira com o maloca. É nessa cidade que uma mulher forjou a gravidez de trigêmeos. Foi na "Capital da Literatura Infantil" que o prefeito foi preso, cassado e depois continuou o seu mandado impunemente. O melhor hotel fazenda do país é taubateano. A Fêgo Camargo, por muito tempo, fora considerada uma das grandes escolas do país. O município de Taubaté fora uma das primeiras cidades do Brasil à abolir a escravidão.

Entretanto, em meio a grandes história, não importa por qual lado você entre em Taubaté, a primeira placa da cidade vai te alertar sobre o que mais interessa ao taubateano: o E.C. Taubaté. Não tem como escapar, ainda mais se você não gosta de futebol. Em meio a tantas celebridades notáveis e outras tão inescrupulosas, passando por tradições desnecessárias e abandono público, a cidade de Taubaté, assim como o clube, sobrevive. Porém, ela sobrevive pacatamente, tão morosa quanto o Jeca Tatu. Resumindo: não tem como não saber sobre Taubaté.

Porém, o que espanta é que Taubaté - tanto o clube quanto a cidade - esqueceu o tamanho da sua grandeza. O azul da bandeira parece desbotar em contraste com o céu sempre cerúleo dessa cidade. Eu sei que é difícil carregar a chaga de um passado tão potente, mas nunca se pode perder a personalidade. Atire a primeira pedra aquele taubateano que nunca ouviu uma história sequer sobre esse clube. Ou sobre suas façanhas. É impossível, todos os taubateanos sabem alguma coisa sobre o passado do clube! Existem muitos torcedores que se acham donos do clube, ou que se acha melhor torcedor que qualquer outro homem/mulher comum que vai aos jogos do alvi-azul no Joaquinzão. Isso é bom, mostra que o ego ainda persiste na alma calejada de uma torcida que já se acostumou com apedrejamentos.

Apesar disso, é triste ver o quanto a malícia deixou de existir por aqui. Deixamos de ser uma pedra no sapato para ser um objeto de chacota. O histórico de abordagens audaciosas, declarações furiosas e atitudes de respeito foram substituídas por melismas, floreios e auto-piedade. De oportunidade à favor. De burro para jumento. O clube foi acompanhando a cidade num declínio vertiginoso. É triste ver dois gigantes que carregam o mesmo nome se afundando numa poça de arrependimentos. A história, os moradores e os torcedores não merecem. Taubaté não nasceu para ser "bonzinho". Taubaté não nasceu para ser inocente. Taubaté é caipira. É lutador. Taubaté sabe se aproveitar das situações adversas transformando-as em algo positivo.

Freud se espantaria caso fosse incumbido de analisar o que se passa na cabeça de um taubateano. Não importa se o jogo é às 15h, numa quarta-feira de 35°, o taubateano vai faltar ao trabalho, vai encontrar com o seu encarregado de área na geral, vai pagar uma fortuna por um punhado de amendoim e vai lotar o Joaquinzão, pois ele sabe que o jogo é uma semi-final e o clube não pode ficar sem ele. O torcedor, mesmo sabendo que a chance do time sofrer com a arbitragem é enorme - já que o "chefe" dos apitadores é um taubateano que faz questão de dar o recado a qualquer diretoria que esteja comandando o Taubaté de que "eu guardo mágoas e eu não vou parar de me vingar enquanto o próprio Monteiro Lobato não sair da sua cova e vier me pedir desculpas pessoalmente" -, mas ele vai esquecer que nada dá certo ultimamente e vai torcer como sempre fora de costume por essas bandas. Ele vai dizer pro cara do lado: "Olha lá o trem passando, certeza que vai 'chamar o gol". Vai ficar puto da vida quando o juiz ignorar a marcação de impedimento pelo bandeira e vai se lembrar do taubateano que "fere" outros milhares de conterrâneos nessas horas vitais e sentenciará: "é sempre assim, meu filho". O doutor tcheco se espantaria ao ver que nem o Rei do futebol saiu daqui com vitória. Freud ficaria estupefato em saber que milhares de taubateanos saíram às 3h da manhã de suas casas e foram atrás do time, em solo adversário, com mais torcedores e barulho do que o mandante, e mesmo assim voltou derrotado.

O torcedor se flagela, se zanga, mas não abandona. O sentimento parece ser inabalável, mas o número de dissidentes aumenta a cada dia mais. É injusto julgar aquele que já abandonou o clube, ou aquele que já não acompanha como antigamente. Dá para entender, é feio, mas dá para entender. Afinal, todo mundo quer vencer e não só torcer. Só que um clube como o Taubaté não pode se dar a esse luxo, é preciso ser competitivo sempre. Fazer valer a camisa sempre!

O Taubaté é Taino, um baixinho parrudo e encrenqueiro que nunca fugiu de uma briga. O Taubaté é Joaquim de Moraes Filho, um negociador implacável que não fica sentado na janela esperando o cheiro da primavera. O Taubaté é Hugo, que era tão habilidoso quanto era sério. O Taubaté é a alegria de uma cidade de 300 mil habitantes. O Burro da Central não pode esquecer quem ele é, a bandeira não pode desbotar. Se nem Freud explica os irlandeses, o que diria ele sobre nós, um bando de caipiras orgulhosos? O orgulho tem que voltar a falar alto, pois o centenário bate à porta e ninguém vive mais a sua cultura do que o taubateano. O caipira de 99 anos já cansou de roer o osso, já está na hora dele começar a degustar do banquete que ele tanto merece!


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