Postado Por : Caio Nascimento 17.12.13

"O sofrimento valeu a pena", sentenciou Leandro Romagnoli, meio-campista campeão do Torneo Inicial de 2013 pelo San Lorenzo. De quase rebaixado em 2012 para campeão argentino de 2013, El Ciclón sobreviveu a grandes catástrofes em sua centenária história. E o clube quase viu tudo ruir abaixo na última rodada, desde os gols no estádio Marcelo Bielsa até o petardo de Allione no travessão Cuervo. Que lástima, El Ciclón!

Los Cuervos, como é carinhosamente chamado o San Lorenzo e os seus adeptos, ficaram mais famosos recentemente devido ao fanatismo do Papa Francisco pelo clube do descontrolado bairro de Boedo. Famosos pelas murgas e carnavais, o bairro é pequenino, sendo que sua extensão compreende a esquina de San Juan até a avenida Boedo. Querido por muitas pessoas famosas, dentre eles Viggo Mortensen - talvez muito mais fanático que o próprio Papa-, o San Lorenzo é muito maior do que parece ser.

Muitos clubes possuem chagas e inúmeras feridas abertas. Alguns, por terem uma torcida colossal, chamam mais atenção para esses problemas do que outros clubes de mesma tradição, mas com torcida em menor escala. Agora imagine um clube que fora desapropriado de sua própria casa, sem motivos plausíveis, e teve que vê-la ser derrubada até o último bloco de concreto. Foi o que aconteceu com o San Lorenzo.

Mediano no continente, porém gigante na Argentina, o San Lorenzo é chamado de El Ciclón devido aos esquadrões de matadores que teve na década de 1960. Década na qual o Papa Francisco costumava frequentar o antigo estádio El Gasómetro, em Boedo, que fora expropriado pela ditadura argentina e depois vendido para um conglomerado de supermercados franceses. Letalmente lesados, o San Lorenzo ganhou na Justiça o direito de voltar ao seu local sagrado. Várias campanhas de "compre seu pedaço de Boedo" foram lançados pela direção do clube - que conta com a ajuda do Papa, do Mortensen e do Novak Djokovic, que fez questão de conhecer o clube numa recente visita à Argentina - para reerguer o antigo estádio.

Envolto numa carga emocional muito grande, Los Cuervos não poderiam imaginar que após seis anos desde sua última conquista nacional algo parecido fosse acontecer. Depois de assumir a liderança há duas semanas atrás, uma sequência de empates começou a causar pânico nos fanáticos torcedores azulgrana. E foi com um empate, no Almafitano, cancha do Velez Sarsfield, que também tinha chances de título, que o San Lorenzo pôde comemorar sua redenção. Graças a um empate entre Lanús e Newells, diga-se.

Sem orçamento para grandes contratações e com heróis modestos, Juan Antonio Pizzi conseguiu armar uma equipe compacta, que apesar das claras limitações, dispunha de um futebol arrojado. Apesar de ter sido o campeão de menor pontuação da história, os comandados de Pizzi conquistaram 33 pontos em 9 vitórias, 6 empates e 4 derrotas.

Entretanto, o ponto mais marcante na jornada do Ciclón foi a recuperação de jogadores esquecidos pelo tempo, caso do autor da frase que abriu essa prosa, o Leandro Romagnoli. Além dele, jogadores como Mercier, Piatti, Buffarini e Correa também reconquistaram seu respeito após um começo alucinante. Sem contar, claro, com o desfalque de Cauteruccio, o uruguaio matador que se contundiu na hora H, mas que vinha de uma auto-confiança nunca vista antes.

Somando-se à todos esses fatores, havia uma torcida apaixonada e apaixonante do lado de fora (literalmente) do Amalfitano - por motivos de segurança, La Gloriosa Butteler e seus asseclas não puderam assistir à partida do Ciclón no estádio do adversário. Averso ao futebol moderno, e respaldando eternamente as cores do San Lorenzo, Los Cuervos sempre foram uma torcida muito sentimental. Claro, além de terem perdido o seu terreno para a ditadura, o San Lorenzo é um dos poucos clubes grandes na Argentina que não possui uma Libertadores. No entanto, esse amor nunca parou. Escute bem esse cântico tradicional dos hinchas azulgrana:

Vengo del barrio de Boedo
Barrio de murga y carnaval
Te juro que en los malos momentos
Siempre te voy a acompañar

Dale, dale matador!
Dale, dale matador!
Dale, dale dale matador!


A união quase religiosa entre San Lorenzo, Los Cuervos e o bairro de Boedo é algo que nem o próprio Papa azulgrana seria capaz de explicar. No entanto, desde sua aclamação no pontífice, a sorte parece ter mudado para o clube argentino. Se Deus realmente existe, é certo que o Papa Francisco pede bençãos para esse time calejado e, por muitas vezes, azarado. Mas também, pudera, pois um clube como o San Lorenzo deve desfrutar de momentos como este. Pouco se viu em território argentino uma combinação de fatos randômicos convergindo no mesmo ponto, e ainda mais a favor de um dos clubes mais sofredores do país. A Libertadores vai ser pequena para essa turma de descontrolados!

Essa é a torcida do San Lorenzo comemorando na famigerada avenida Boedo

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