Postado Por : Caio Nascimento 23.5.14

Todo mundo sabe que a final da Champions League deste ano será entre Real Madrid e Atlético de Madrid, dois antigos rivais da mesma cidade. Porém, poucos sabem que essa será a primeira vez, em toda história da competição, que a final será composta por dois times da mesma cidade, criando assim um verdadeiro dérbi na final.

A final não terá o glamour de um Bayern de Munique, ou a polêmica de um José Mourinho. O Barcelona nem sequer chegou perto de brigar pela final. O Real Madrid, do melhor jogador do mundo, já fora mais favorito em outros tempos e, por isso, era dado como favas contadas contra o poderoso Bayern. Já o Atlético de Madrid, tão ignorado pelos madridistas (e grande parte do mundo), chegou à final quebrando todos os paradigmas.

Mas é só por isso que o clássico é tão simbólico, tão especial, para a final da Champions? Não, é muito mais do que isso.

Em toda história, Real Madrid e Atlético de Madrid se enfrentaram em 252 partidas oficiais, sendo que há uma ampla vantagem madridista (134x62). Porém, os dois se enfrentaram em apenas cinco finais, e, pasmem, com vantagem esmagadora dos Colchoneros (4x1). Apesar disso, mesmo se enfrentado tantas vezes, esta será apenas a segunda vez que os dois se enfrentarão em um campo neutro. Na única vez que isso aconteceu, o Real Madrid venceu a partida por 2x1, em 1959, na cidade de Zaragoza.

O Real Madrid, apesar de ser mais caro - e ter mais lastro - que o Atlético de Madrid, passará por uma situação inusitada: apenas 5 jogadores do elenco já disputaram uma final de liga européia (Casillas, Xabi Alonso, Pepe, Cristiano Ronaldo e Arbeloa). Desses cinco, Casillas é o que mais jogou finais (quatro partidas), e é seguido de perto por Xabi Alonso (três partidas), que será desfalque contra o Atlético de Madrid devido à suspensão pelo terceiro cartão amarelo. Já pelo lado do Atlético de Madrid são 14 jogadores que já estiveram em alguma final de competição européia.

Mas, ao contrário do campo, o Real Madrid não sofrerá com a inexperiência no seu banco de reservas. Carlo Ancelotti disputará sua quarta final, igualando o recorde de Miguel Muñoz, Marcello Lippi e Alex Ferguson. Simeone se juntará a Luis Carniglia, Fernando Riera, Helenio Herrera, Otto Gloria, JC Lorenzo e Hector Cúper como apenas o sétimo treinador não-europeu à comandar um finalista de Champions League.

Enquanto o Real Madrid busca a tão desejada "la décima", o Atlético de Madrid pode ser o décimo campeão invicto da Champions League. Caso perca a partida nos pênaltis, o clube pode ser o primeiro vice-campeão invicto. Porém, o Atléti possui uma curiosidade à seu favor: Godín, zagueiro uruguaio, nunca perdeu uma final de partida única em sua carreira.

O Madrid jogou 14 vezes contra rivais espanhóis em competições europeias, sendo que foram 7 vitórias, 4 empates e 3 derrotas (uma para o Atlético). O Atlético também jogou 14 vezes contra rivais do mesmo país em competições europeias, sendo que venceu 7 vezes, empatou 3 vezes e perdeu 4 vezes (duas para o Real Madrid). Se serve de consolo, o Atlético de Madrid não perde para um espanhol numa competição europeia desde 2004 (Villareal 2x0). Os Galáticos nunca venceram uma partida oficial em Lisboa, enquanto os Colchoneros só jogaram uma vez, onde conseguiu conquistar um empate.

Mas será que isso torna a grande final mais simbólica? Não, não é isso.

O grande ponto dessa final é o balanço que se faz da trajetória dessas duas equipes madrilenhas ao longo da história. O Madrid é um ano mais velho que o Atlético, e ambos surgiram humildemente após conferências de estudantes de outras cidades. Apesar do começo similar, o destino alterou o rumo da vida das duas equipes.

O Madrid virou Real depois de uma intervenção do rei Alfonso XIII, que deu esse título ao clube que mais gostava na capital. Com tal alcunha tudo ficou mais fácil para o coirmão do Atlético, que teve que se desdobrar para sobreviver. Antes de ser coroado, o Real Madrid era uma equipe competitiva mesmo sem todo o dinheiro e pompa que viria a ganhar posteriormente.

Antes de ser Atlético de Madrid, o clube fora conhecido como Athletic Madrid (alusão ao Athletic Bilbao), Athletic Aviación e Atlético Aviación. Com clara influência inglesa, o clube da capital sofria com a perseguição nacionalista, especialmente durante o regime do generalíssimo Francisco Franco. As alternâncias de nome se davam porque o general não suportava que espanhol adotasse neologismo. Barcelona, Athletic Bilbao e outros clubes, que para piorar viviam fora da capital, sofreram com isso.

Enquanto o Real Madrid ganhava notoriedade com a realeza, o Atlético de Madrid sobrevivia com a fidelidade de seus torcedores, muitos deles da classe operária de Madrid. Inevitavelmente, o Real Madrid tornou-se uma potência mundial muito devido aos privilégios da coroa, mas, existem outros casos na própria Espanha de outros "Reais" que não vingaram potencialmente. Portanto, o Madrid (como os torcedores realmente chamam o clube) não é apenas um clube abonado, ele lutou também.

O tempo foi se passando e o Atlético de Madrid ficava cada vez mais para trás, se endividando junto com a classe média da capital. Vez ou outra o clube conquistava um troféu, revelava um jogador (dentre eles o genial Luis Aragonés) e até figurava numa final de Champions League (1974, quando perdeu por 4x1 para o Bayern de Munique). Mas era difícil sobreviver, e um rebaixamento assolou a vida do torcedor Colchonero.

Os dois sempre foram arquirrivais, mas, após a vertiginosa queda do Atlético de Madrid ao longo dos anos, os torcedores do Real Madrid simplesmente ignoraram a presença do coirmão da capital. Existe coisa pior para um torcedor do que ver o seu time ser ignorado por um rival? Não! No Brasil, algo semelhante acontecera com Santos e Botafogo, em seus respectivos estados, em relação ao Corinthians e ao Flamengo. Para piorar a situação do Atlético fora atribuído ao clube a pecha de "El Pupa" (o café-com-leite), pois o clube era incapaz de desempenhar uma temporada digna. Muitos torcedores jovens do Atlético viraram a casaca e começaram a torcer para o Madrid, pois a ânsia por um título era maior do que a fidelidade. Aos poucos, o Atlético de Madrid se tornava "o clube do meu avô". Isso dói, meu amigo. O Superclássico, que hoje é entre Real Madrid e Barcelona, antes era Real Madrid e Atlético de Madrid.

O ódio e rancor apodrecia o coração e a esperança do torcedor Colchonero. Colchonero, aliás, é uma apelido dado pelos madridistas, em tom jocoso, pois o uniforme do Atlético era semelhante aos colchões dado ao povo desprovido de dinheiro pelo regime. É comum você enxergar faixas ao redor do Vicente Calderón estampando o movimento "anti-madridista". Hoje, a rivalidade é gigantesca apenas no coração do torcedor atleticano.

O Real Madrid muitas vezes paga pelo ódio dos outros torcedores por ser um clube extremamente rico e poderoso. Um clube não se mantém dessa maneira por tanto tempo sem ter muito trabalho e grandeza. Os Galáticos são poderosos graças ao seu esforço, que às vezes fica em segundo plano devido à arrogância de pessoas distintas e não do clube. Se algum clube sonha em ser potência, o exemplo a ser seguido é o Real Madrid.

Nos últimos 10 anos o Atlético de Madrid se reestruturou muito, chegando a conquistar dois títulos continentais e, recentemente, uma liga espanhola. Simeone fez o plantel entender a dor do Colchonero, criando na equipe uma alma peleadora, difícil de ser batida. Taticamente estruturado, o Atlético busca, mais uma vez, na base da alma vencer o seu maior rival estando no seu maior momento desde 40 anos atrás.

Ancelotti fez do Real Madrid um time menos arrogante e mais tático do que era antes, especialmente durante o reinado de José Mourinho. Muito bem montado, o Madrid possui um sistema defensivo seguro e um contra-ataque espetacular. Sem contar, é claro, com Cristiano Ronaldo, um grandíssimo jogador.

Nessa final simbólica vencerá aquele que tiver o coração mais quente.



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