Postado Por : Caio Nascimento 29.12.14

Segundo a meteorologia, os fenômenos "El Niño" são alterações significativas de curta duração na distribuição de temperatura da superfície da água do Oceano Pacífico, que reflete profundamente no clima. O "El Niño" acontece irregularmente em intervalos de 2 a 7 anos, os ventos sopram com menos força em todo o centro do Oceano Pacífico, resultando numa diminuição da ressurgência de águas profundas e na acumulação de água mais quente que a normal na costa oeste da América do Sul e na diminuição na população de peixes.

Você provavelmente lembra dessa matéria quando tinha que estudar para a prova de geografia no ensino fundamental e, provavelmente, deve estar se perguntando o que isso tem a ver com futebol. Os mais sagazes e viciados em futebol já devem ter sacado ou lembrado do nosso querido Fernando "El Niño" Torres, que voltou para o Atlético de Madrid, que, assim como o fenômeno meteorológico, é um caso bastante peculiar.

Como todos sabem, a carreira do atacante espanhol não está muito boa atualmente. Esse pequeno eufemismo foi mais em respeito à carreira do jogador do que a realidade condiz, pois a verdade é que a fase do "El Niño" é realmente péssima. Nessa temporada, antes de ser repassado por empréstimo do Milan para o Atlético de Madrid, Torres possuía apenas UM gol em DEZ jogos realizados com a camisa rossonera (o certo seria rossoneri, mas como já é comum no Brasil essa grafia, vamos lá). Aos 30 anos de idade, o espanhol encontra-se num dilema, pois, ao contrário do apelido, ele já não é mais nenhum menino e as chances de reencontrar a glória vão ficando cada vez mais escassas.

No entanto, o que levou o menino prodígio do Atlético de Madrid a chegar nesse patamar tão inócuo? Será que ele nos enganou perfeitamente por quase uma década com grandes atuações com as camisas de Atlético de Madrid e Liverpool? A mudança repentina na carreira do jogador só não é mais cruel do que as piadas que ele sofre atualmente dos torcedores rivais (e às vezes até daqueles que deveriam o apoiar).

Entretanto, teve um momento importante que serviu como um divisor de água na carreira do atacante espanhol: a transferência do Liverpool para o Chelsea, na temporada de 2010/2011, por 58 milhões de euros (20 milhões a mais do que o Liverpool pagou para tirar o jogador do Atlético de Madrid, na temporada de 2007/08), no mercado de verão da Europa. Na época, a transferência do Torres era considerada a maior da história do futebol inglês, justificada pela excelente fase do jogador que vinha de quatro temporadas espetaculares com o Liverpool, sendo, em alguns momentos, mais importante até do que o Gerrard, lenda viva dos Reds. As cifras assustadoras depositadas na contratação do jogador só não foram maiores do que o choque causado pela decisão do jogador em trocar de clube na Inglaterra. Torres fora cortejado por inúmeras equipes, inclusive o Real Madrid, enquanto vivia um caso de amor de platônico com o Liverpool. Ele fora terceiro colocado nas Bolas de Ouro da France Football, FIFA (não eram unificadas na época) e World Soccer, em 2008, além de ser o artilheiro da seleção espanhola (na época), campeão do mundo com a Fúria em 2010, na África do Sul, artilheiro da Premier League em 2007/08, jogador mais jovem a vestir a braçadeira de capitão do Atlético de Madrid, com 19 anos, em 2001, e vários outros recordes e títulos coletivos com a seleção espanhola, Atlético de Madrid e Liverpool. Tudo foi pelo ralo no Chelsea. Justamente quando o patamar havia sido elevado.


Essa foi a última vez em que Fernando Torres foi visto como um grande atacante do futebol internacional.
Torres tinha tudo para ser um dos grandes atacantes do futebol mundial atualmente. Por mais ou menos 8 anos, o espanhol, em grande fase, demonstrava muita velocidade, vigor físico, precisão nas finalizações, dribles certeiros e cabeceamento perfeito (como era legal ver o Torres cabecear as lindas bolas invertidas pelo maestro Steven Gerrard). A pressão exercida devido ao alto valor investido na contratação do espanhol foi nociva para o desempenho do atacante, que nem de longe desempenhou o mesmo papel de outrora com a camisa azul do Chelsea. Após quatro temporadas e meia com os Blues, Fernando Torres atuou em 117 partidas e marcou apenas 46 gols, média fraquíssima para um jogador desse calibre.

No entanto, zueira se instaurou na carreira de Torres não apenas por causa do seu fracasso no clube londrino, mas também porque existia uma grande rivalidade  entre Liverpool e Chelsea na época em que ele fora contratado pelo time de azul. Desde que fora contratado pelo Liverpool até o dia em que ele trocou os Reds pelos Blues, Liverpool e Chelsea se enfrentaram inúmeras vezes, especialmente na Liga dos Campeões, com jogos épicos e resultados surpreendentes. Além disso, adicione a raiva que todos os torcedores ingleses têm pelo dinheiro de Roman Abramovich, dono do Chelsea, e o sucesso retumbante do sucessor do "El Niño" no Liverpool, o espetacular Luís Suarez, que atuou em 125 partidas pelos Reds e marcou 82 gols. Vale lembrar que tanto Torres quanto Suarez chegaram ao mesmo tempo em suas respectivas equipes e saíram coincidentemente na mesma janela de transferências. Outro detalhe importante fora a estréia de Fernando Torres, contra o próprio Liverpool, em Stamford Bridge, casa do Chelsea, numa partida em que o adversário dominou o dono da casa e saiu vencedor pelo placar de 1x0.


Muito se fala na Inglaterra que um dos motivos do insucesso do espanhol pelo Chelsea foi uma praga rogada pelos torcedores do Liverpool contra o atacante. Parece que funcionou...

Desastres acompanharam a vida do "El Niño" nos anos subsequentes desde a transferência para o Chelsea, como a perda da titularidade na seleção espanhola (ficou de fora de algumas convocações, mas acabou sendo convocado para o Mundial no Brasil, em 2014), por exemplo. Todos os elementos radioativos que compunham a conturbada mudança de ares do jogador acabaram infectando aquele que um dia foi um espetacular definidor de jogadas e partidas. Torres foi do céu ao inferno quando aceitou receber mais para sair do Liverpool para ganhar mais títulos e, desde então, nunca mais foi o mesmo. A falta de confiança era nítida.

Todavia, a sorte voltou a sorrir novamente para o lado de Fernando Torres. Cansados devido ao baixo rendimento do atacante em campo, o Milan aceitou a proposta do Atlético de Madrid, clube de coração do "El Niño", para liberar o jogador por empréstimo de um ano e meio em troca do italiano Alessio Cerci, que não se adaptou ao clube espanhol. Torres, que sempre transpareceu uma imagem gélida tanto para marcar gols quanto para com Chelsea e Milan, algo completamente diferente dos tempos em que era Colchonero, quando comemorava e participava com uma vontade louvável. Aliás, esse caso é bastante parecido com o do Alexandre Pato, atualmente no São Paulo.

Após sete anos e meio, "El Niño" está de volta ao Vicente Calderón, onde é ídolo e talvez um dos únicos lugares do mundo onde ele ainda é extremamente respeitado. Herói na campanha do acesso do Atlético de Madrid na segunda divisão, na temporada 2001/2002, quando conquistou o título para os Colchoneros, Torres receberá mais uma chance para voltar a ser aquele grande jogador que atuou em altíssimo nível por Atlético de Madrid e Liverpool por quase uma década. A negociação, a primeira instância, parece um tiro no pé do clube Colchonero, que já conta com o ótimo Mario Mandzukic, ex-Bayern de Munique, como camisa 9. O croata se adaptou rapidamente ao estilo de jogo do Simeone no Atléti, além de estar marcando muitos gols pelo clube. Contudo, sua boa fase fez acender um sinal de alerta no clube, pois o Manchester City pretende contratá-lo para substituir os inúmeros atacantes lesionados nessa temporada. São muitos detalhes envolvendo a troca do Torres e a opção do jogador, mas uma coisa é certa: todo o apoio que o Niño receberá de volta à sua casa pode transformar a carreira desse "ex-grande centroavante em atividade", e espera-se que a péssima fase do atacante tenha encontrado um fim depois que os bons ventos futebolísticos se tornaram escassos, assim como acontece com o fenômeno meteorológico que recebe o mesmo apelido que o espanhol.


Torres, jovem e capitão do seu time de coração, nos tempos áureos no Atlético de Madrid. Será que ele volta a ser o que era antes?

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