Postado Por : Caio Nascimento 25.5.13

Todo mundo já sabe que a final da Champions League desse ano é entre Borussia Dortmund e Bayern de Munique. Porém, existe um mundo por trás dessa final. Um mundo estritamente germânico e que atende pelo nome de Bundesliga.

No ano em que completa 50 anos, a Bundesliga emplacou um feito notável na história do futebol europeu: colocou dois clubes alemães na final da Champions League pela primeira vez. Em seu cinquentenário, a liga alemã conseguiu se destacar de novo no cenário futebolístico.

No entanto, não é a data comemorativa, ou a final inédita que credencia a Bundesliga como o melhor campeonato nacional do planeta. Uma série de fatores positivos e culturais implicam na afirmação e na consolidação dos alemães.

O fator primordial para o sucesso da Bundesliga foi o reconhecimento do passado e a realização de um ideal. Para que isso acontecesse, foi preciso muita dedicação, precisão, determinação, paciência e disciplina, marcas do futebol alemão em si, segundo Bobby Moore. 

Claro que somente isso não garante sucesso no futebol moderno. Marius Neuhaus, cientista político e especialista sobre a Bundesliga, afirma que a identificação cultural do alemão com a sua região é extremamente forte. Além disso, um fator global também interferiu nesse processo: a Segunda Guerra Mundial. Devido à grande depressão alemã ocasionada pela derrota na Segunda Guerra, o futebol virou uma escapatória da realidade. O alemão é fissurado por futebol, e ele morre pelo time que torce.

Sabendo que o futebol é muito mais do que uma paixão, os alemães revitalizaram a sua liga com base em conceitos administrativos modernos. Dentre todas as principais ligas europeias, a Bundesliga é a única que não possui dívida com o fisco. A Premier League, La Liga e Calcio Serie A, estão cada vez mais afundados na crise europeia.

Além de não possuir dívidas com a Federação Alemã de Futebol, a Bundesliga não permite que os clubes de futebol se endividem. O famoso fair play financeiro que Michel Platini, presidente da UEFA, quer implantar em toda Europa, já existe há mais de uma década na Alemanha. Caso algum clube esteja devendo, a determinada equipe é rebaixada de divisão até que ela se reestruture e consiga o acesso, por meio da competição, e volte para o lugar de origem (ou para a primeira divisão).

Outro fator importantíssimo para o crescimento da receita e da igualdade dos clubes alemães é com relação à cota de televisão. A Bundesliga sentenciou que todos os clubes tem que receber a mesma fatia do dinheiro pela transmissão, e que TODOS clubes tem o direito de ter a sua partida televisionada para todo país ao menos uma vez por rodada. Isso mesmo, na Alemanha não importa se o time tem pouca ou muita torcida, ele vai aparecer ao menos uma vez na televisão (tanto na TV aberta quanto na TV fechada).

É quase inconcebível imaginar que isso aconteça no Brasil, onde existe um monopólio de Corinthians e Flamengo, em todas as rodadas, e em todos os canais.

Graças à igualdade nas cotas e com a grande exposição do clube na televisão, as agremiações alemãs trabalham fortemente com o marketing para conquistar mais torcedores, mais sócios e mais dinheiro. Por ser tão justa com os clubes, a Bundesliga acaba que incitando-os à usar o marketing como um meio legítimo para angariar mais dinheiro, e assim ter vantagem na compra de jogadores. Simples, honesto e preciso. Algo que o Bayern de Munique explora com maestria.

"A maioria dos clubes da Premier League e da La Liga teriam que declarar falência na Alemanha. É uma combinação com o status econômico do país, e a Alemanha está liderando a Europa nesse momento de crise", conta Marius.

Aliás, na Alemanha é raro ver um clube despejar cifras exorbitantes em jogadores. Desde a remodelação, quando os alemães perceberam que eles não eram mais uma potência temerosa no âmbito mundial do esporte bretão,  os germânicos decidiram investir nas categorias de base. Todo o lucro que cada clube consegue com as cotas, com a federação, com o marketing, vão, em sua grande parte, para a infraestrutura da academia de jovens.

Essa preocupação com os jovens jogadores reflete na seleção. Hoje, a Alemanha é a única seleção párea, talvez superior, à Espanha. Com futebol ofensivo, pragmático e compacto, a equipe de Joaquim Low é um resultado caseiro. Por exemplo, no último jogo oficial da Alemanha, contra o Cazaquistão, pelas Eliminatórias da Copa do Mundo, em que ela venceu por 4x1, apenas dois jogadores, de todos os que foram relacionados para a partida, não atuavam por clubes alemães: Sami Khedira e Mesut Ozil, ambos do Real Madrid. Lembrando que 90% dos jogadores da equipe principal da Alemanha já passaram pelas divisões de base da seleção nacional.

Somando todos os fatores já apresentados, existe um que é a marca registrada da Bundesliga: o público. Os torcedores, razão maior do futebol, são tratados de maneira especial na Alemanha. Desde o início deste século, o campeonato alemão é insuperável na média de público. O líder de arrecadação e de público na Europa é o finalista desta edição da Champions League: o Borussia Dortmund.

Os estádios alemães são a combinação perfeita de conforto, segurança e modernidade, sem tirar a vibração e a pressão impulsionada pelos torcedores. Dentro das arenas, é obrigatório ter um local reservado para os mais fanáticos, pois os clubes sabem que os donos são os torcedores e não os dirigentes ou patrocinadores. É comum uma agremiação alemã eleger um torcedor/assessor responsável pela comunicação entre a diretoria e os torcedores da arquibancada. Esse feedback entre torcida e direção possibilita que o clube agrade e melhore as questões exigidas pelos fãs.

Os mosaicos, bandeiras e adereços, tão presentes nas festas protagonizadas pelos torcedores alemães, são resultado de paixão, fanatismo e organização entre clube e torcida. O laço que une o clube, os fãs e os jogadores é muito estreito. Franck Ribery, ponta do Bayern, apesar de francês, sempre comemora os seus gols no meio da "geral" bávara. Sebastian Kehl, um dos jogadores mais experientes do Borussia Dortmund, puxa o coro da Muralha Amarela (a maior geral da Europa, com 25 mil lugares atrás do gol visitante) com um megafone.

Detalhe: desse numeroso e suntuoso aglomerado rebanho de torcedores alemães, 40% são mulheres! Sim, o futebol é tão forte, tão cultuado na Alemanha, que esse número grande de moças no estádio evidencia o quanto é trabalhado a marca, a receita e o público na Bundesliga.

Dito isso, em meio à tantos êxitos alcançados pelos germânicos na reconstrução do seu futebol, a filosofia alemã virou referência no mundo da bola. O resultado será acompanhado neste sábado, quando o Bayern de Munique, símbolo maior desse profissionalismo alemão, enfrentará o conterrâneo de Dortmund, o Borussia, que renasceu das cinzas (e de uma dívida de mais de 200 milhões de euros) graças ao uso correto das receitas.

O Bayern vai para a sua quarta final de Champions League desde a entrada do século XXI, sendo que das últimas três o clube só conquistou uma, na temporada 2000/2001, contra o Valencia. O clube bávaro, referência no futebol europeu por ter a melhor saúde financeira dentre os gigantes europeus, é favorito por ter um plantel com mais opções de qualidade. Os principais destaques do time (Phillip Lahm, Bastian Schweinsteiger e Thomas Muller) são pratas da casa misturados com jogadores de alto nível que foram comprados antes do ápice (Manuel Neuer, Dante, Franck Ribery, Arjen Robben e Mario Mandzukic). Por ter perdido a final da temporada passada para o Chelsea, em casa, o Bayern tem uma segunda chance para amenizar a decepção que ainda mora no coração de cada bávaro vivo.

O Borussia Dortmund, que conquistou a Europa apenas uma vez, em 1996/1997, contra a Juventus, encara agora a sua segunda final na história. Como dito antes, o Borussia conseguiu sobreviver à falência em 2003, quando teve que vender o seu estádio, o Westfalenstadion, para uma empresa privada, e fazer acordos para o pagamento de sua dívida milionária. Além disso, o BVB (como é conhecido o Borussia Dortmund) contou com um empréstimo de 2 milhões de euros do Bayern de Munique. Isso mesmo, dois rivais fervorosos. Irônico? Nem um pouco! O Borussia se reergueu e sanou todas as dívidas que tinha. Depois de conseguir eliminar o maior encosto de sua vida, o time da cidade de Dortmund recomprou o seu estádio e apostou na fórmula caseira de revelar jogadores. Além de revelar, o Borussia utilizou-se do scouting de jogadores desconhecidos e com potencial, caso do Shinji Kagawa (que foi vendido ao Manchester United por 26 milhões de euros, sendo que o japonês fora comprado pelo Borussia por 120 mil dólares do Cerezo Osaka),  Felipe Santana, Robert Lewandowski, Lukasz Piszczek e Jakub "Kuba" Blaszczykowski. Das últimas três edições da Bundesliga, o BVB conquistou duas, e hoje está na final da Champions League. Um renascimento épico.

Portanto, a final desta Champions League entre Borussia Dortmund e Bayern de Munique vai muito além da "orelhuda" (apelido da taça). No canto vermelho, o Bayern de Munique, um clube gigantesco, potente e inovador. No canto amarelo, o Borussia Dortmund, um gigante alemão que por muito pouco não pereceu, e agora desfruta de seu trabalho duro e do profissionalismo. Juup Heynckes contra Jurgen Klopp, o primeiro se despede do futebol, enquanto o segundo se consolida como um treinador estrategista e motivador. Duas torcidas alucinantes vão duelar num show à parte dentro das arquibancadas. Mario Gotze, vendido pelo Borussia Dortmund ao Bayern de Munique, não joga. Enquanto isso, Franck Ribery briga com Jerome Boateng na comemoração do título da Bundesliga. Em Wembley, os dois clubes de melhor campanha desta edição da Champions League vão disputar o troféu, não só de rei da Europa, mas também o troféu de rei da Bundesliga, atualmente a melhor liga nacional do mundo.

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