Postado Por : Caio Nascimento 28.5.13

Aviso: esse texto vai ser longo, e tem como objetivo o Neymar. Várias homenagens já foram feitas pro menino. Por isso vou tentar fazer diferente, e mostrar o caminho e os motivos que levaram até essa minha eterna gratidão pelo garoto ousado e alegre. Se você está sem paciência, ou é mais um desses que tem birra do menino, sugiro que não leia. Mas se quer entender o significado desse gênio do futebol, prossiga.

Antes de qualquer coisa: Obrigado por tudo, Neymar!

Quando eu digo tudo, estou generalizando uma gama de sentimentos que achei que não pudesse ter com o meu time. Ou que não tinha direito de ter. Passei anos e anos sofrendo calado quando as discussões eram sobre futebol e títulos. Tinha raiva, amargura e me torturava cada vez que o meu time "morria na praia".

Ninguém respeitava mais o meu time. Uma tragédia! Como é que ninguém respeitava o time que tem um cartel de jogadores gloriosos e títulos incontestáveis? No Brasil é assim. Não importa o seu passado, suas glórias e sua camisa. O que importa é o que acontece agora. Não há valorização do que já fora feito.

Esperei 12 anos da minha vida para ver o meu time conquistar algo de importante. E foi um Campeonato Brasileiro, do qual eu quase nem lembro o final do jogo, pois assim que o lateral-esquerdo encravou a bola no fundo das redes inimigas, o árbitro gaúcho apitou o final da partida e eu desmaiei de tanta incredulidade. Era um sentimento inexplicável!

Mas antes disso eu só tive decepções. Meu amor por esse clube de futebol foi forjado nas lágrimas de uma derrota, numa final de Campeonato Brasileiro, em que o título foi tirado à fórceps por "aquele que não deve ser mencionado". Nesse time tinha um jogador que pintara o cabelo de vermelho. Tinha 5 anos quando vi a minha primeira final de campeonato, e logo na minha primeira vez aconteceu essa catástrofe.

Os anos de trevas se arrastaram pela minha vida. O homem que tinha o cabelo vermelho transferiu-se pra um time grená da Espanha. Quando o meu pai me contou, eu fiquei puto e desolado. Perdera o meu herói para esse maldito time! E agora? Nada. Não acontecera nada. Um hiato monstruoso imperou no time da praiano.

O futebol, como todos sabem, é um fator social extremamente influente no Brasil. Isso infligia muito no meu comportamento, porque o meu time sempre decepcionava. Futebol é tudo na vida de um garoto brasileiro nessa faixa etária. E eu nunca tinha do que me gabar, o que era o oposto dos torcedores do time verde, do time de três cores e daquele time chato pra cacete que gostava de falar besteiras do meu.

No ano de 2002, a minha vida tomou com uma guinada fantástica. De repente todo mundo começou a temer o meu time. Tinham ódio de um menino de canelas finas e de outro menino que já era barbado mesmo tendo apenas 17 anos. O menino barbudo era o meu favorito, e desde então eu sempre quis ter barba. Hoje eu tenho um pouco, mas nada comparado à que ele tinha.

Em 2003, quando eu ainda me acostumava com o sucesso, o time dos meninos foi pra uma final de Libertadores. Libertadores, cara! Eu só sabia o que era isso por causa de outros times que a disputavam. Claro que eu sabia que, na década de 1960, o meu time tinha conquistado a Libertadores duas vezes seguidas. Só que todo mundo da minha idade já tinha visto o seu time jogar essa bendita competição, menos eu. E na primeira vez que tive esse gostinho, o meu time chegou na final contra um time argentino que levava no nome uma região da face humana. Assisti todos os jogos dessa competição, sozinho, todas as noites no sofá de casa. Perdemos os dois jogos da final, e eu tive a pior noite da minha vida.

Em 2004, ganhamos outro Brasileirão, de forma dramática, e por pontos corridos. Só fomos conquistar o título na última rodada. A Libertadores fora um fiasco, perdemos pra um time colombiano com nome engraçado, mas que no fim sagrou-se campeão. Nesse mesmo ano, o garoto barbudo mudou-se para o Porto, de Portugal. Fiquei chateado, mas ainda tinha o menino de canelas finas.

Já em 2005, um ano horrendo. Eu realmente odiei o ano inteiro. E muito. Tomei cuidado para não usar muito a palavra "ódio" e suas conjugações até aqui, pois à partir de agora eu vou despejá-las quase que aleatoriamente. Foi nesse ano que tudo começou a degringolar. Começou com a confusão da transferência do menino de canelas finas. O presidente do meu time brigou com o empresário dele, e ele brigou com o presidente do meu time. Em meio à isso tudo, um time da realeza espanhola ficava botando lenha na fogueira. Parecia que tudo ia desmoronar. Durante esse período, o lateral-esquerdo que marcara o gol do título de 2002 saiu. Logo em seguida o menino de canelas finas também foi embora. O ódio começava a fluir em minhas veias.

O ódio cessou por um pequeno período em 2006, quando o clube conquistou o Paulistão depois de 22 anos na fila. No entanto, o clube voltou a ser uma draga. Em 2007, a mesma história. Conquistou o bi do Paulista e depois fez feio no Brasileirão.

O ano de 2008 foi o ano em que a raiva e o ódio imperaram de vez na minha vida. O meu time quase foi rebaixado, o que seria inédito em sua história! Perdi a conta de quantas vezes eu chutei o meu velho rádio. O time se safou graças à um gol que mais parecia um jogo de pinball.

No entanto, foi no ano seguinte que a minha vida começou a mudar. Foi em 2009, um ano comum na história recente de letargia do meu time, que um certo menino, franzino como um filé de borboleta, pisou no gramado do Pacaembu pela primeira vez. Vagner Mancini, o treinador responsável pela maior maravilha da história do futebol moderno no Brasil, colocou o garoto sobre o qual eu, e vários outros santistas, tínhamos notícias dele desde os seus 13 anos de idade. Todo santista conhecia ele, mesmo quando ele ainda jogava pelo juvenil. Nós víamos vídeos dele, postado em blogs santistas da vasta web, e a ansiedade era grande para vê-lo no time principal.

Logo em sua estréia, o filé marcou um gol de cabeça contra o Mogi Mirim. Aliás, no Sapão encontrava-se o meu herói de 95, o homem de cabelo vermelho. Ele não tinha mais o cabelo tingido, mas ainda era o mesmo homem que eu endeusava. Mal sabia eu que uma troca de bastão estava acontecendo naquela vitória por 2x1 sobre o Mogi, no Pacaembu.

Aliás, o final deste ano de 2009 foi um tanto quanto profético. Apesar de ter terminado na 12ª colocação do Brasileirão daquele ano, o jogo final contra o Coritiba, no qual o meu time venceu por 4x0, valeu pelo filé de borboleta. Ele marcou os dois últimos gols da partida. Lá pra dezembro, encerrou-se o ciclo "teixeirista" - que fez muitas coisas boas, inclusive sobre o garoto em questão. O tio Laor, presidente que quebrou o ciclo, prometera que o clube voltaria as glórias brevemente com o menino que arregaçara no jogo contra o Coxa.

Eu juro que não acreditava que 2010 seria o começo da minha catarse. Minha não, de todos os torcedores do clube. O ano de 2010 começou exatamente como terminou, em 2009, na partida contra o Coritiba. O time venceu o Rio Branco pelo mesmo placar de 4x0, e com os dois últimos gols marcados pelo mesmo menino, que agora usava um penteado moicano.

Em 2010, o meu time voltou a ser o Santos do meu pai. Ele voltou graças à Neymar. Nesse ano, o Peixe conquistou o Paulistão de forma arrasadora. Foi tão devastador e rápido que eu nem acreditava! Era uma comoção, um renascimento absurdo. Goleadas e mais goleadas por mais de quatro gols. Mais de quatro gols, cara! Jamais pensaria que fosse ver um 9x1 na minha vida. Tudo bem que não era só o Neymar, mas ele era o protagonista dessa retomada!

Nesse mesmo ano o Santos ganhou a Copa do Brasil. Se você prestou atenção no que escrevi, o Santos não ganhava mais do que um título por ano. Parecia uma maldição que impedia o Santos de disputar duas competições ao mesmo tempo e ganhar as duas. Foram tantas goleadas que eu mal pude memorizar! Ah, doce ano de 2010!

No primeiro ano de Neymar como titular do Santos, minha vida ganhou as cores que eu não tinha. E tinha ficado mais feliz, pois o Santos me deixava feliz. Ele era temido de novo. O menino de moicano era odiado por todo mundo, e o time continuava ganhando títulos! Meu mundo sempre girou entorno do futebol, e a minha orbita era o Santos. Porém, faltava a minha obsessão. Aquele título que faltou em 2003.

Eu suplicava por uma Libertadores da América. Foram longas noites acordado, pensando em várias formas de fazer o Santos ganhar esse bendito título. Quando eu percebi que as coisas só pioravam, e que esse sonho estava muito longe de se realizar, eu quase deixei de acreditar.

Depois de tanto tempo, de tanto sofrimento, de tanta dor e decepção, o time liderado por Neymar me deu a maior alegria da minha vida. Foi um presente inesquecível. Quem ama um clube de futebol sabe o que é sofrer por ele. Minha vida poderia ter parado ali que não teria mais importância. Eu poderia idolatrar o Neymar apenas por essa Libertadores conquistada, e que eu clamava todas as noites a fio.

Foram seis títulos com o Santos em 5 anos de profissionalismo. Ao todo, Neymar ficou nove anos no Peixe. Várias pessoas já tentaram "vendê-lo" durante esse tempo, mas ele sempre ficou. Ele ganhava muito bem, mas isso era fruto de uma engenharia financeira perfeita. Ele também cedeu muitas vezes, e bem que poderia chiar, mas nunca o fez. Foram várias demonstrações de amor pela camisa branca ao longo desses nove anos. Com ou sem proposta do Chelsea, Barcelona e etc. Com ou sem o título Brasileiro. Com ou sem um time à sua altura na reta final de sua passagem, ele sempre nos honrou. Sempre. Jogava até quando não precisava.

O Santista não ama o Neymar apenas pelas dancinhas, ou pelos 136 gols, ou pelos dribles, ou pelas goleadas, ou pelo Prêmio Puskas. O Santista ama o Neymar porque ele era um de nós. Ele torceu pelo Robinho em 2002 e 2004, assim como nós torcemos. Ele é amado apenas pelo Santista, porque ele nos deu receita, patrocínio e está colaborando para um grande aumento da torcida. Ele devolveu a auto-estima perdida.

Neymar, em meio à tantas críticas, é um garoto que carrega o Santos até no sobrenome. Foi na vitória nos pênaltis, depois do empate de 1x1 contra o Mogi Mirim pela semi-final do Paulistão, quando o menino subiu no alambrado e comemorou a classificação como se fosse um título,  que percebi o tamanho desse amor dele pelo meu time. Quem viveu intensamente esses anos do Neymar no Santos sabe o que esse moleque representou. Ele nos resgatou do ostracismo. Do fundo do pântano.

Em 19 anos, o Santos conquistou 5 títulos. Nos cinco anos de Neymar pelo Peixe, conquistamos 6 títulos. É impossível não ser eternamente grato. A sina de vitórias voltou em mais uma era. A Era Neymar. Foi um combo de alegrias que, nesses 19 anos anteriores, tínhamos esporadicamente.

Quando ele diz que é um "até logo", eu acredito piamente. Eu sei que ele vai voltar. Eu tenho confiança de que ele vai ser o melhor do mundo lá na Europa. Vou torcer tanto pro sucesso dele, quanto torcia por ele aqui. Pela hombridade e pelo amor que ele teve por nós, os Santistas, durante esse tempo de negociação com os culés, só me resta idolatrá-lo eternamente. Se já não bastasse todas as glórias que ele nos dera, ele também nos respeitou como nenhum outro havia respeitado.

Por todos os dias tristes que viraram dias felizes após um jogo seu. Pelo resgate do nosso orgulho. Pelas lágrimas, lá em Brasilia. Por tudo o que você nos deu, só me resta dizer: vai e conquiste o mundo, Neymar! E até logo!

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